13 Reasons Why – O que eu senti e por que eu não te recomendo a série

[contém spoilers, mas isso não é tão importante assim – dito por alguém que abomina spoilers]

Já vi muitos textos sobre a série por aí, já falei sobre ela com vários amigos e conhecidos, já deixei vários comentários em posts de várias pessoas. E achei que precisava desenvolver mais o assunto, até pra eu mesma poder digerir minhas impressões.

Como eu assisti a série: engolindo um episódio um atrás de outro, possivelmente do mesmo jeito que a maioria das pessoas viu. Em partes porque sou assim, obsessiva com esse tipo de conteúdo, posso ver 50 episódios seguidos de algo sem piscar. Mas muito também porque a série foi pensada pra levar o espectador a consumi-la desse jeito. Pensa bem: não havia necessidade. Tudo na série foi armado pra esticá-la o máximo possível e pra fazer você continuar ali, preso, adiando todos os seus planos simplesmente porque você precisava saber o que o Clay fez de tão grave. E, no fundo, ele não fez nada. Mas essa frustração acaba perdendo a força tamanha a bad que bate a essa altura da série.

Achei boa ou ruim? Razoável. Tem seu valor. Boa, definitivamente, não achei. Uma série que me faz ver todos os episódios em dois dias não necessariamente é boa, porque 1. sou fácil e 2. pelo que comentei aqui em cima. Ela foi bem montada, mas tem falhas de roteiro já mencionadas em outros textos – e a que mais me incomodou foi o bendito curativo na testa do Clay pra marcar o que era passado ou futuro (sim, só serviu pra isso, e era totalmente desnecessário, quase uma afronta à nossa capacidade de leitura das cenas e de outros artifícios mais sutis).

Como foi a bad pra mim: foi pesada. Fiquei mal, revirei na minha cabeça coisas que já estavam enterradas, e depois de terminada a série eu fiquei com toda aquela bad aflorada pensando “e agora, o que eu faço com toda essa bad?”. Do alto dos meus trinta anos, olhei pra minha bad, sofri e aos poucos engoli ela de volta pra dentro de mim, tentando enterrar de novo situações e pensamentos que não são nada bem-vindos. Mas isso me incomodou profundamente: eu tento 30 anos, e uma grande parte do público dessa série tem menos. E as bads deles não estão enterradas e eles não vão só dar uma olhadinha nelas – elas estão bem vivas e depois de ganhar intensidade eles também vão ficar sem respostas – porque a série não traz nenhuma.

Pra quem essa série pode ser útil: pra quem é algum dos “motivos”. Pra quem acha que não tem impacto na vida de todos os que estão ao seu redor. Sim, todos. Não impactamos só nossa família e amigos próximos. Somos parte da vida do porteiro, do vizinho, da menina que esbarramos no ônibus, do caixa do supermercado. Pra quem precisa aprender sobre empatia.

O que faltou, na minha opinião: mais consistência e responsabilidade. Uma série que se dá ao luxo de usar artifícios de manipulação pra prender você na tela numa história desnecessariamente arrastada sobre um tema super delicado, tem o dever de, no mínimo, fazer a lição de casa. E ela não fez. O drama dos opressores foi bem explorado, mas o drama do oprimido não. Na minha opinião, o sofrimento e a depressão da Hannah foram pouco explorados e quase romantizados (“peraí que vou dar uma pausa na minha depressão pra criar um jogo, gravar 13 fitas k7 e pintar cada uma com esmalte azul”) , e a série não cobriu os riscos de abordar os oprimidos. Vale entender o que é o efeito Werther pra ter uma ideia do quanto 13 reasons why pode ser perigoda. A maki fala sobre isso nesse texto aqui.

Porque eu não te recomendo a série: porque eu não te conheço. Falo isso pra você, estranho leitor, e pra você, minha grande amiga. Eu não te conheço como você se conhece. Não sei quais são os seus gatilhos, não sei o que te assusta e o que te faz chorar quando ninguém está vendo. É uma série perigosa, toca em assuntos delicados e sai correndo, depois de um passo-a-passo de como cortar os pulsos se é que você tinha alguma dúvida.

Ei, 13 Reasons Why: volte duas casas e tente novamente.

 

Outros textos que eu recomendo sobre o assunto:

 

Mais fones de ouvido, menos babacas.

cc0410b6bd3536c733d2dbe891703c24Tenho um problema sério: fui criada pra me preocupar com os outros. Pra me perguntar sempre se não tô incomodando. Pra não ser folgada e não me servir toda a comida, porque tem mais gente pra comer. E pra entender que num ambiente com 50 pessoas, se uma se incomoda com algo que eu fiz, preciso repensar essa atitude.

É um problema quando eu passo a pensar primeiro nos outros e depois em mim. Mas é um problema ainda maior quando eu preciso conviver com babacas. Gente que não tá nem aí, que simplesmente não se importa com o espaço alheio e come a comida toda, e não liga se alguma das 50 pessoas a sua volta está incomodada.

Tive, durante os últimos tempos, o desprazer de conviver com babacas. Se você não tem certeza de quem são os babacas, preciso te dizer que eles não vem necessariamente com plaquinha de identificação. Babacas podem parecer legais pra caramba. Te recebem com um sorriso, são os legalzões da galera. E sabe onde tá cheio de babaca? Nos ambientes de trabalho. E um agravante: quando os babacas são os legalzões, muito pouca gente acaba percebendo a babaquice. E, se você percebe, provavelmente não terá muita sorte.

Vamos a um exemplo prático: primeiro dia de trabalho. Rola aquela tensão social (em partes normal, em outras uma tensão social extrema fruto da sua personalidade introspectiva), aquela expectativa pra agradar o pessoal e passar logo esse período de adaptação estranho. E aí, uma surpresa boa: a pessoa que senta do seu lado é legal pra caramba. Te ajuda, te diz onde fica a cozinha, o café, o chá. Te explica como funcionam algumas coisas na empresa. E ele tem bom gosto musical: coloca música ambiente e a música é ótima.

Como isso pode ser ruim? Eu explico: um dia você tá com dor de cabeça. Noutro dia você precisa MESMO se concentrar. E no outro, você quer um pouco de silêncio. Na maioria das vezes você tá com seu próprio fone de ouvido – mas rola de ter que subir o volume no máximo pra não misturar com a música ambiente. E se você achar que cansou de ouvir música… Não vai poder parar de ouvir. Porque a música ambiente está ali. E um dia você pede pra baixarem o volume (provavelmente nos dias de dor de cabeça). E vai ouvir um “ah, relaxa um pouco, vai”. E no outro, quando sua paciência já estiver se esgotando, você vai dizer “ai, sabe que não tô com vontade de ouvir música agora?”, e vai ouvir desse cara gente-boa-pra-caramba “pô, você tem que entender que não tá sozinha no escritório”. De repente, ele virou um cara nervoso-pra-caramba. Pronto. Nasceu um babaca.

E aí os babacas começam a brotar: um dia você tá num call super importante e os babacas começam a falar super alto, temas super aleatórios ou bizarros: de fofoca a “parabéns pra você” pra alguém, com palmas e tudo. E aí você pede silêncio. E aí você é um chato. Pronto. Nasceu a torta de climão que ninguém quer comer e dura pra sempre na geladeira da firma.

Seria super legal né? Se o ambiente de trabalho fosse assim relaxadão. Que todo mundo fosse brother. Que a gente ouvisse música o dia todo e parasse pra conversar por meia hora, e que cantasse mesmo parabéns pra aquele colega que entrou, bem alto e batendo palmas, porque ele merece. Mas sabe o que? Nem todo mundo pode estar relaxadão o tempo todo. Tem gente que tá cheio mesmo de coisas pra fazer, e tá super comprometido com algum projeto e precisa muito se concentrar porque quer ir embora às 18h, do mesmo jeito que você vai. Você talvez tenha sorte, tenha menos trabalho, ou seja menos ansioso, ou tenha uma relação diferente com seu próprio trabalho. Mas é você, né? Tem gente que tá numa ligação super importante, amigo. Em outro idioma, com um chefe e mais 10 pessoas, cada uma de um país diferentes e misturando trocentos sotaques em inglês. E aí a pessoa não sabe se tampa o ouvido pra poder ouvir o que estão dizendo, ou se tampa o microfone pro pessoal no telefone não ouvir a gargalhada dos que estão contando uma piada. Entendo sua filosofia de levar o trabalho numa boa, de ser relaxado e deixar o ambiente mais leve. Só que não pode ser só pra você, né? Se estiver atrapalhando alguém, já não é tão legal assim. Uma pessoa incomodada. É só isso o que precisa. E se você achar essa pessoa chata só por isso, tenho uma notícia: há grandes chances de você ser um babaca.

 

12 Curiosidades sobre a cultura diária argentina (por quem está imersa nela)

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Tem coisa que só anos de Argentina te ensinam. Além disso, sou uma brasileira na Argentina que tem uma diferença em relação a outros brasileiros que também estão por aqui: estou inserida numa típica família argentina. Tenho amigos que vivem ou viveram aqui por muitos anos, mas quando comento algumas dessas coisas eles não conhecem. Están listos?

1. Bebidas diferentes

O Fernet é a clássica bebida argentina que, se você for numa festa de argentinos, com certeza vai provar. Mas tem outras bebidas típicas daqui que são pouco conhecidas pra gente: Gancia e Cinzano são duas bebidas alcólicas chamadas de “aperitivos”, que são servidas com soda antes de comer como um drink pra abrir o apetite (há quem diga que estão ultrapassadas). O Terma é uma bebida sem álcool, bem concentrada e servida com água – tem um gostinho de ervas, é como uma água saborizada bem natural e suave.

2. Banheiro sem chave

Minha mãe foi quem reparou nisso, e é verdade que em muitas casas o banheiro não tem chave. Perigo!

3. Aplausos

Já comentei aqui que os argentinos aplaudem no cinema e no avião depois do pouso. Mas é costume também aplaudir o churrasqueiro – se diz “un aplauso pa’l asador!”, para dizer que o asado ta gostoso.

4. Suerte

Eles ADORAM falar isso. No Brasil o “boa sorte” é usado quando a gente quer realmente desejar sorte pra alguém em alguma situação especifica. Mas aqui, o sorte é como uma saudação de despedida.

-Bueno, nos vemos.
-Chau, suerte!

E no lugar de desejar o que seria “buena suerte”, às vezes eles falam “éxitos”! O que eu acho muito mais legal. Porque ter êxito em alguma coisa é muito melhor que ter sorte, né?

5. Bom apetite

Eu não lembro se no Brasil é tão comum as pessoas falarem bom apetite. Falam, mas não todos os dias do ano da sua vida inteira. Aqui a pessoa não pode te ver com um prato na mao – eles vão falar “buen provecho!” – seja onde for.

6. Termos polêmicos. Gorda, eu?

Essa é complicada. Eles tem uns apelidos carinhosos que pra gente são estranhos: gordo e gorda. É SUPER comum os casais se chamarem assim. Além disso, se você chamar uma pessoa de flaca / flaco, geralmente é com um pouco de desdém. E, POLÊMICA MAIOR DO MUNDO: Negro e Negra. Acontece de também usar o termo pra falar com amigos e conhecidos de maneira carinhosa, MAS infelizmente eles usam isso muitas vezes de maneira pejorativa – mas juram que não tem nada a ver com a cor. Normalmente é usado acompanhando por cabeça “sos um negro cabeza”, que significa que é uma pessoa ignorante e cafona, mais ou menos. Se aplica pra quando alguém faz merda achando graça, ou quando alguém tá endividado e mesmo assim compra o carro do ano… tem um significado bem abrangente, e não sei bem qual seria o equivalente em português. O que me contaram é que a expressão vem da época de uma forte migração interna nos anos 30 protagonizada pelos “cabecitas negras”, trabalhadores rurais que vieram pra capital e ganharam esse apelido nada carinhoso. Eles não eram negros (aqui não tem negros afro-descendentes, praticamente), mas sim tinham o cabelo escuro e a pele morena. Acho péssimo, continua sendo racista.

O último termo polemico: Viejo/vieja. Sabem quem eles chamam assim? OS PAIS. Seja a idade qual for. A gente ouve o tempo todo:

-Voy a la casa de mi vieja

-Hola vieja, estás em casa?

Minha mãe não aprovaria.

7. Estereótipos

Indo para 5 anos de Argentina, já me sinto profundamente influenciada pelo estereótipo argentino. E noto isso simplesmente porque me sinto bem com meu corpo. Eu piso no Brasil e me sinto estranha – porque mulher no Brasil é gostosona e tem cabelo liso / alisado. Eu sou super magrinha e tenho cabelo enrolado. Eles acham meu cabelo o máximo (talvez porque não seja comum), e o ideal de beleza aqui é mulher MAGRA. Não que isso seja legal, mas eu que sou magra naturalmente senti essa diferença na percepção que passei a ter do meu próprio corpo. Sei que a moda em geral usa essa imagem da mulher super magra, mas a mulher “das ruas” no Brasil é malhada: pernão e bundão. Cade o país onde ta tudo bem ser magra, malhada, gorda, etc.?

8. Cuidado ao pisar

Se chover, cuidado. Se os zeladores lavaram a calçada na frente dos prédios, cuidado também. Por um motivo que não consigo entender, em Buenos Aires eles usam um material PÉSSIMO pras calçadas, que quebram sempre ou ficam soltos, e um belo dia você tá andando e espirra água no seu pé e na sua roupa.

9. Anos 80 “a full”
Eles são super “ochentosos”. SUPER. As bandas dos anos 80 são até hoje as melhores e as que todo mundo escuta. A maioria das rádios toca MUITA música dos anos 80. E até os looks do pessoal na rua é meio anos 80.

10. Rivalidades

A nossa rivalidade com os Argentinos não é exatamente recíproca. Eles nos amam, são super curiosos, adoram musica brasileira e muitos conhecem mais o Brasil que eu. Faz mais sentido dizer que eles têm rivalidade com os ingleses (por Guerra das Malvinas reasons) ou com os chilenos – que não sei o motivo, mas eles realmente não se bicam.

11. Almoço de Domingo

Acho super estranho, até hoje, almoçar pizza no domingo. Ou empanada. Aliás, em qualquer dia. Pizza na minha cabeça é uma comida noturna! Pra vocês também? Aqui é uma atração digna de almoço de domingo. Tudo bem que a massa é caseira, feita pelas mãos abençoadas desses filhos de imigrantes. Mas, convenhamos, é muito mais bonito ver uma mesa de domingo cheia de coisas: arroz, feijão, salada, carne, farofa, maionese, etc etc etc.

12. Favor evitar

Se vocês acham que falar de política no brasil é complicado, vocês tão só começando. Aqui já é assim faz tempo. Sem entrar em detalhes: simplesmente não vale a pena. Se a frase tiver os nomes “Kirchner”, “Perón” ou “Menem” no meio… esteja preparado ou nem tente.

Leave meus cachos alone

Não escolhi um bom momento ou um bom lugar pra nascer com cachos. Na minha escola, as meninas bonitas tinham cabelo liso, eu tinha “cara de empregada doméstica”. Sim, escutei isso de um menino lindo e rico que fingia ser legal pra ganhar bala de graça. Empregada doméstica não pode ser bonita? Parece que não.

Vai fazer entrevista de trabalho? Vai numa festa? Quer impressionar? Precisa fazer escova.

E eu ainda dei sorte: sou branca e meu cacho é até bonito, não é pixaim. Pixaim não pode ser bonito? Parece que não.

Mas no Brasil, é assim. Provando vestido pra um casamento na costureira, ela diz: “e vai fazer o que com esse cabelo?” – sim, aparentemente ir num casamento com “esse” cabelo não pega bem. Se você faz um relaxamento pra “abrir os cachos”, não pode descuidar ou querer se livrar da química: “tá na hora de fazer essa raiz, né?”. Se você se inspirou vendo no instagram a foto daquela it girl cacheada com muito volume e definição, não adianta marcar sua melhor amiga dizendo que quer deixar a progressiva pra assumir os cachos – ela vai dar uma risadinha e mudar de assunto “ai amiga, não combina com você! rs”. Rs? Não tem ninguém rindo aqui.

Aí aparece uma blogueira. Aparece outra. E outras. E de repente o youtube, o instagram, o facebook estão invadidos por cachos – ondulados, crespos, platinados, ruivos, pixains, curtos, longos, volumosos e todos lindos. E muitas meninas estão fazendo o big-chop e se encontrando de verdade.

itcachos
Na ordem: @ninagabriellass, @nathaliebarros, @maahjulia, @yulibalzak, @saraholiveirab612, @lariirezende, @deboraluzoficial

Há 4 anos e meio saí do Brasil, e há 5 estou sem química no cabelo. Na Argentina quase não tem cacho. É a terra do cabelo liso, dos descendentes de italianos com seus cabelos lisos e pesado. Seria o inferno do complexo? A terra do bullying? Nada disso. É a terra onde as pessoas me param na rua pra elogiar meu cabelo. E acham maravilhoso eu aparecer numa festa com os cachos cheios, porque o diferente parece ser bem-vindo.

Há alguns meses fui ao Brasil e numa festa junina de uma paróquia me surpreendi: vi duas irmãs MARAVILHOSAS, negras, uma com um black MARAVILHOSO e outra com tranças PODEROSAS. Fiquei hipnotizada, comentei com quem estava comigo e me disseram “sim, elas são super estilosas, foram criadas assim”. Em outras palavras, elas foram empoderadas desde pequenas.

Mas sabe de uma coisa? Precisamos combinar um negocinho desde já, aproveitando que as coisas estão começando a mudar:

NOTALL WHO WANDERARE LOST (2)
Seja livre – e deixe que os outros sejam também. Se você escolheu cachos, não julgue quem não escolheu. A melhor parte disso tudo é que somos livres pra ter o cabelo que quisermos. Aceitar o cabelo que nasceu com a gente é maravilhoso – mas se você quer alisar, ou pintar de roxo, ou raspar a cabeça, tá tudo certo. Mesmo! 🙂

Crise profissional: quem nunca?

spring-laurel-_-be-braveTô querendo escrever esse post há, no mínimo, 1 ano. Mas naquela época, a frustração era muito grande pra conseguir transformar o sentimento em motivação. Há mais ou menos 9 meses, as coisas mudaram. Primeiro eu pensei: vou esperar passar um tempinho, os 3 meses de experiência pelo menos, pra não cantar vitória antes da hora. Depois disso, fiquei muito ocupada e acabei sempre deixando pra depois.

Hoje eu continuo ocupada, mas vim aqui. Porque alguém passando pelo que eu passei pode terminar vindo parar aqui. E vai que eu consigo ajudar? Vamos lá. Como o título indica, esse texto é sóbre trabalho. Sobre carreira e sobre encontrar o caminho e sobre a crise que, pra mim, foi inevitável. 

Sem saber direito porquê, estudei publicidade. Já vinha meio indecisa, abandonei jornalismo no comecinho, quis arquitetura, depois desenho industrial, e praticamente na fila do vestibular mudei de ideia. Sou mais uma pra confirmar: aos 18 anos, quase ninguém tem ideia do que quer fazer da vida. Na metade da faculdade me agarrei numa oportunidade de estagio e fui me dando “bem”. Trabalhei como redatora alguns anos, em agências pequenas e numa cidade pequena. Mas nunca amei o trabalho de criação em agência. Simplesmente isso: nunca amei, não tinha o tesão que via em meus colegas. Que não necessariamente amavam seus trabalhos, mas eles se identificavam e se sentiam a vontade ali. Eu não. Brainstorming coletivo, por exemplo, não é comigo. Gosto de ter minhas ideias quietinha no meu canto.

Aí que: decidi viajar, larguei tudo, fui embora. Falando “vou trabalhar de qualquer coisa, vou morar um tempo fora, fazer uns cursos, tô nem aí”. Luiza de hoje diz pra Luiza de ontem: para de besteira, fazendo o favor.

Em 2011 cheguei na Argentina e, depois de uns meses vivendo de economias, não tinha jeito: precisava trabalhar. E sem saber direito o que queria fazer, fui pra um trabalho que procurava alguém que falasse espanhol, português e inglês. Naquela época meu espanhol e meu inglês ainda estavam meio fracos, mas um trilingue é tão difícil que eles acabaram dando um desconto. Entrei. O trabalho? Não tinha nada a ver com publicidade. Nada de comerciais, nada de títulos, slogans, jingles, briefiengs. Um trabalho pra pagar as contas. Fui levando, até perceber que estava presa. Tinha deixado de lado “a busca” e me acomodei em um trabalho que não tinha nada a ver comigo. Me acomodei tanto, que fiquei boa. Fui promovida. Mudei de departamento. Fui reconhecida. Me destaquei. Fui hunteada. Mudei de trabalho, fui boa de novo. E aí pirei. Já não dava mais. Três anos se passaram e eu tava enlouquecendo, pensando que não poderia fazer aquilo por muito tempo mais, mas não conseguia olhar pra fora. A essa altura eu já tinha entendido que poderia fazer MIL COISAS dentro de comunicação e publicidade que não eram trabalhar na criação de uma agência. Mas aí, já tava mais velha. Meu currículo já tinha ficado estranho. Eu olhava pro meu currículo e pensava: eu jamais me contrataria. É praticamente um gap de 3 anos. Como eu tinha tanta certeza? Eu trabalhava como recrutadora. Tcham.

Quem vive nessas crises (e recrutadores em geral passam por muitas delas, já que é um trabalho um pouco estranho e, me arrisco a dizer, de transição) passa por dias bons, dias neutros e dias péssimos. Em dias péssimos eu chegava em casa arrasada. No trabalho, olhava pro computador e nada daquilo fazia sentido. Volto a dizer: eu era boa. Tinha um trabalho legal. Trabalhava numa empresa muito bacana. Meu salário não era ruim. Mas eu tava enlouquecendo. O que eu fiz? Google. O que resolve todos os problemas. “Conteúdo + português”. Conteúdo era uma área pela qual eu simpatizava muito. E só precisava achar uma vaga que precisava de mim, ou, melhor dizendo, do meu português. Fiz isso várias vezes. E um dia, ali estava ela: uma vaga pra mim. Vou citar as palavras chaves que saltaram na minha frente: conteúdo, web, televisão, séries, filmes, português. Do mesmo jeito que agarrei aquela oportunidade de estágio na faculdade, eu enviei um e-mail imediatamente com meu CV. Na mesma semana me chamaram. Fiz a melhor entrevista da minha vida – a base de muita reflexão e amadurecimento de como eu poderia transformar minha experiência aparentemente inútil em algo que me ajudaria muito. Arrasei. Mesmo. E entrei.

Há 9 meses, respiro aliviada. E cada vez que vejo nos corredores a recrutadora que me chamou, dou um abraço nela, querendo dizer “obrigada por ter acreditado no meu CV esquisito”. Não sei se eu vou fazer isso pro resto da minha vida, mas me vejo nisso por muitos e muitos anos. Encontrei uma fórmula que funcionou pra mim: um trabalho que precisava das minha habilidades. Todo mundo é bom em alguma coisa, e eu achei um trabalho que precisava justo dessas minhas coisas boas. Não tenho aquela  ilusão de amar loucamente o que faço – isso é para poucos. Um trabalho precisa, sim, pagar as contas. E precisa também motivar. E com isso, junto com uma boa dose de qualidade de vida, fico satisfeira.

E sabe o que é mais curioso? Aquele amadurecimento de transformar minha experiência em algo útil, não foi papinho de entrevista. É a mais pura verdade. Trabalhei em algo que não tinha nada a ver com nada, mas tive experiências muito valiosas. Tive chefes maravilhosos, companheiros incríveis – outros nem tanto, mas que tiveram seu papel na história toda. Pisei em multinacionais pela primeira vez, melhorei HORRORES meu nível de inglês quando me vi tendo que fazer apresentações em inglês numa conferência telefônica – e, mais que isso, ganhando um concurso de apresentações da equipe. Me pergunto às vezes se eu estaria preparada pro meu trabalho de hoje se não fosse por tudo isso. E na maioria dessas vezes me respondo: acho que não.

Ah, a vida. Essa danadinha.