Leave meus cachos alone

Não escolhi um bom momento ou um bom lugar pra nascer com cachos. Na minha escola, as meninas bonitas tinham cabelo liso, eu tinha “cara de empregada doméstica”. Sim, escutei isso de um menino lindo e rico que fingia ser legal pra ganhar bala de graça. Empregada doméstica não pode ser bonita? Parece que não.

Vai fazer entrevista de trabalho? Vai numa festa? Quer impressionar? Precisa fazer escova.

E eu ainda dei sorte: sou branca e meu cacho é até bonito, não é pixaim. Pixaim não pode ser bonito? Parece que não.

Mas no Brasil, é assim. Provando vestido pra um casamento na costureira, ela diz: “e vai fazer o que com esse cabelo?” – sim, aparentemente ir num casamento com “esse” cabelo não pega bem. Se você faz um relaxamento pra “abrir os cachos”, não pode descuidar ou querer se livrar da química: “tá na hora de fazer essa raiz, né?”. Se você se inspirou vendo no instagram a foto daquela it girl cacheada com muito volume e definição, não adianta marcar sua melhor amiga dizendo que quer deixar a progressiva pra assumir os cachos – ela vai dar uma risadinha e mudar de assunto “ai amiga, não combina com você! rs”. Rs? Não tem ninguém rindo aqui.

Aí aparece uma blogueira. Aparece outra. E outras. E de repente o youtube, o instagram, o facebook estão invadidos por cachos – ondulados, crespos, platinados, ruivos, pixains, curtos, longos, volumosos e todos lindos. E muitas meninas estão fazendo o big-chop e se encontrando de verdade.

itcachos
Na ordem: @ninagabriellass, @nathaliebarros, @maahjulia, @yulibalzak, @saraholiveirab612, @lariirezende, @deboraluzoficial

Há 4 anos e meio saí do Brasil, e há 5 estou sem química no cabelo. Na Argentina quase não tem cacho. É a terra do cabelo liso, dos descendentes de italianos com seus cabelos lisos e pesado. Seria o inferno do complexo? A terra do bullying? Nada disso. É a terra onde as pessoas me param na rua pra elogiar meu cabelo. E acham maravilhoso eu aparecer numa festa com os cachos cheios, porque o diferente parece ser bem-vindo.

Há alguns meses fui ao Brasil e numa festa junina de uma paróquia me surpreendi: vi duas irmãs MARAVILHOSAS, negras, uma com um black MARAVILHOSO e outra com tranças PODEROSAS. Fiquei hipnotizada, comentei com quem estava comigo e me disseram “sim, elas são super estilosas, foram criadas assim”. Em outras palavras, elas foram empoderadas desde pequenas.

Mas sabe de uma coisa? Precisamos combinar um negocinho desde já, aproveitando que as coisas estão começando a mudar:

NOTALL WHO WANDERARE LOST (2)
Seja livre – e deixe que os outros sejam também. Se você escolheu cachos, não julgue quem não escolheu. A melhor parte disso tudo é que somos livres pra ter o cabelo que quisermos. Aceitar o cabelo que nasceu com a gente é maravilhoso – mas se você quer alisar, ou pintar de roxo, ou raspar a cabeça, tá tudo certo. Mesmo! 🙂

Fomos enganados!

rulos

Rulos. Em espanho, esse é o nome. RRRrrrrrrrrrulos. Há quase dois anos (!) estou na Argentina. Argentina, a terra dos italianos nascidos na América Latina e que falam espanhol. A terra do cabelo liso. LISO. Enormes cabelos lisos, pesados, por todos os lados.

Pra vir pra cá, deixei de fazer tratamentos químicos no cabelo, pois sabia que nao ia achar nenhuma sede do Beleza Natural. Aos poucos (ou não), fui passando a tesoura até chegar na liberdade total. E eis o que aconteceu:

O cara que pesa as frutas no supermercado, a atendente da padaria, a menininha de 5 anos atrás de mim numa fila, a senhora me encarando na mesa ao lado da cafeteria, as pessoas que trabalham comigo, olham pra mim e dizem:

“…que lindos rulitos!”

Nos dias que meu cabelo fica arrumado demais e “pra baixo” demais, fico querendo que ele fosse um pouco mais “duro”, que se jogasse um pouco mais pra cima. No ano passado, fui a um casamento no Brasil e quando fui provar meu vestido na costureira (aí), ela me perguntou: “e seu cabelo, vai alisar pro casamento?”. Não, eu respondi. Ela ficou em silencio, quase que constrangida por mim.

Esse nao é um post do orgulho das raizes nem nada disso; eu só queria mesmo dizer pra todas as brasileiras com o cabelo enrolando que não é nada disso, minha gente. Cabelo baixo e grudado na cabeça não é mais bonito. Cabelo alisado, muito menos. Demorei 20 anos pra comecar a entender isso e precisei vir pra um lugar onde quase ninguém tem cachos pra ter certeza. Quando eu vejo alguém na rua aqui com o cabelo BEM PRA CIMA, sei que não é uma argentina, mas também sei que quase nunca é brasileira – na maioria das vezes as negras lindas e com cabelos divinos e assumidos são americanas, inglesas, etc.

Aviso dado. Palavra de quem passou a achar o cabelo mais bonito no momento em que acorda.