Dos pequenos mundos que a gente cria

Liniers – Una tristeza perfecta, de esas que te hacen crear algo para no olvidarte cómo se siente… una tristeza perfecta.

Dos 10 aos 15, aproximadamente, eu morava em um mundinho isolado. Tinha umas 5 amigas da escola, mas passava muito, MUITO tempo sozinha. Morei em dois condomínios, cheios de gente da minha idade, fazendo tudo o que pessoas dessa idade fazem. Na maior parte do tempo, eu os observava da janela, ou de longe enquanto brincava com uma das minhas amigas que também era minha vizinha. Agora, enquanto escrevo isso (com quase 32 anos), começo a pensar que na verdade era tudo bem legal. Mas preciso fazer uma forcinha pra me colocar no meu próprio lugar e entender quem eu era naquele momento.

Aparência: estranha. Magra, magra demais, extremamente magra, esquisitamente magra. Cabelo sem controle, sem aceitação, eu sonhava com o dia em que ia molhar o cabelo e ele secaria liso, magicamente.
Habilidades sociais: inexistentes. Eu não sabia conversar, interagir, me manifestar, nada.
Contexto familiar: TURBULENTO.

Pois bem, outro dia na terapia, falando sobre a parte turbulenta, eu escutei a frase “você até que se saiu muito bem”. E acho que concordo. E começo a pensar que esse mundinho isolado que criei, me ajudou a amadurecer e a me formar. E hoje, quando me lembro dele, não posso evitar sentir um pouco de saudades – e eu podia jurar que não sentiria saudades dele nunca.

As atividades frequentes do meu mundinho se resumiam em: escutar música, gravar músicas nas rádios, ligar nas rádios pra pedir músicas, e escrever. Escrever muito. Escrever qualquer coisa. Eu e mais duas amigas escrevíamos “a história”. Era uma história sem propósito e sem fim. Cada uma tinha uma personagem: eu era a Maria, e elas eram Verônica e Julieta. A gente ia passando o caderno uma pra outra e cada uma continuava a história da sua personagem, talvez projetando a vida que queria ter, talvez apenas imaginando sem nenhuma pretensão. Além disso, eu tinha minhas próprias histórias. Grupos de amigos, casais, meninas… não importava. Enquanto eu escrevesse, minha cabeça se mantinha ocupada. 

Pela minha memória, foram só 5 anos de mundinho. Mas parece que foi uma eternidade, e que depois dele, tudo passou voando. A minha percepção de quem eu sou está tão presa àqueles 5 anos, que de vez em quando tenho que chamar minha própria atenção pra me lembrar que depois daquilo teve muito mais. Do mesmo jeito que, de vez em quando, também preciso me lembrar do que me inspirava tanto – principalmente a escrever. No fundo, esse mundinho continua comigo sempre – toda vez que preciso me isolar de tudo e de todos, ou que preciso encostar numa caneta e rabiscar alguma coisa, ou quando observo o mundo bem de longe.

Das coisas que eu mais queria naquela época, consegui quase todas.
Eu queria ser bonita, queria ser independente, queria ter um grupo de mil amigos (“misto, de meninos e meninas”, eu pensava) e queria ter um relacionamento feliz e saudável.
De tudo isso, só não consegui o grupo de mil amigos. Consegui vários amigos, mas a vida quis que não fossem um grande grupo, e ainda por cima colocou cada um deles num canto do mundo.

E você, como era o seu mundinho?

One thought on “Dos pequenos mundos que a gente cria

  1. Celma Março 28, 2018 / 9:10 am

    Um mundinho que é só seu ,onde só você sabe o que acontece , o que pode ser bom ou ruim. Tenho a impressão que nós todos temos ou já tivemos um mundinho, só que às vezes é difícil lidar com isso e é muito importante aprender e extravasar positivamente esse nosso mundinho. E vc realmente se saiu muito bem.

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