Mais fones de ouvido, menos babacas.

cc0410b6bd3536c733d2dbe891703c24Tenho um problema sério: fui criada pra me preocupar com os outros. Pra me perguntar sempre se não tô incomodando. Pra não ser folgada e não me servir toda a comida, porque tem mais gente pra comer. E pra entender que num ambiente com 50 pessoas, se uma se incomoda com algo que eu fiz, preciso repensar essa atitude.

É um problema quando eu passo a pensar primeiro nos outros e depois em mim. Mas é um problema ainda maior quando eu preciso conviver com babacas. Gente que não tá nem aí, que simplesmente não se importa com o espaço alheio e come a comida toda, e não liga se alguma das 50 pessoas a sua volta está incomodada.

Tive, durante os últimos tempos, o desprazer de conviver com babacas. Se você não tem certeza de quem são os babacas, preciso te dizer que eles não vem necessariamente com plaquinha de identificação. Babacas podem parecer legais pra caramba. Te recebem com um sorriso, são os legalzões da galera. E sabe onde tá cheio de babaca? Nos ambientes de trabalho. E um agravante: quando os babacas são os legalzões, muito pouca gente acaba percebendo a babaquice. E, se você percebe, provavelmente não terá muita sorte.

Vamos a um exemplo prático: primeiro dia de trabalho. Rola aquela tensão social (em partes normal, em outras uma tensão social extrema fruto da sua personalidade introspectiva), aquela expectativa pra agradar o pessoal e passar logo esse período de adaptação estranho. E aí, uma surpresa boa: a pessoa que senta do seu lado é legal pra caramba. Te ajuda, te diz onde fica a cozinha, o café, o chá. Te explica como funcionam algumas coisas na empresa. E ele tem bom gosto musical: coloca música ambiente e a música é ótima.

Como isso pode ser ruim? Eu explico: um dia você tá com dor de cabeça. Noutro dia você precisa MESMO se concentrar. E no outro, você quer um pouco de silêncio. Na maioria das vezes você tá com seu próprio fone de ouvido – mas rola de ter que subir o volume no máximo pra não misturar com a música ambiente. E se você achar que cansou de ouvir música… Não vai poder parar de ouvir. Porque a música ambiente está ali. E um dia você pede pra baixarem o volume (provavelmente nos dias de dor de cabeça). E vai ouvir um “ah, relaxa um pouco, vai”. E no outro, quando sua paciência já estiver se esgotando, você vai dizer “ai, sabe que não tô com vontade de ouvir música agora?”, e vai ouvir desse cara gente-boa-pra-caramba “pô, você tem que entender que não tá sozinha no escritório”. De repente, ele virou um cara nervoso-pra-caramba. Pronto. Nasceu um babaca.

E aí os babacas começam a brotar: um dia você tá num call super importante e os babacas começam a falar super alto, temas super aleatórios ou bizarros: de fofoca a “parabéns pra você” pra alguém, com palmas e tudo. E aí você pede silêncio. E aí você é um chato. Pronto. Nasceu a torta de climão que ninguém quer comer e dura pra sempre na geladeira da firma.

Seria super legal né? Se o ambiente de trabalho fosse assim relaxadão. Que todo mundo fosse brother. Que a gente ouvisse música o dia todo e parasse pra conversar por meia hora, e que cantasse mesmo parabéns pra aquele colega que entrou, bem alto e batendo palmas, porque ele merece. Mas sabe o que? Nem todo mundo pode estar relaxadão o tempo todo. Tem gente que tá cheio mesmo de coisas pra fazer, e tá super comprometido com algum projeto e precisa muito se concentrar porque quer ir embora às 18h, do mesmo jeito que você vai. Você talvez tenha sorte, tenha menos trabalho, ou seja menos ansioso, ou tenha uma relação diferente com seu próprio trabalho. Mas é você, né? Tem gente que tá numa ligação super importante, amigo. Em outro idioma, com um chefe e mais 10 pessoas, cada uma de um país diferentes e misturando trocentos sotaques em inglês. E aí a pessoa não sabe se tampa o ouvido pra poder ouvir o que estão dizendo, ou se tampa o microfone pro pessoal no telefone não ouvir a gargalhada dos que estão contando uma piada. Entendo sua filosofia de levar o trabalho numa boa, de ser relaxado e deixar o ambiente mais leve. Só que não pode ser só pra você, né? Se estiver atrapalhando alguém, já não é tão legal assim. Uma pessoa incomodada. É só isso o que precisa. E se você achar essa pessoa chata só por isso, tenho uma notícia: há grandes chances de você ser um babaca.

 

Sobre memórias e uma irmã improvável

bring backbring backbring back my bonnie to meto me (1)Um dos melhores momentos da última semana pra mim foi um áudio no whatsapp. Minha irmã cantando uma musiquinha infantil em inglês. E, bem, ela tem mais de 30 aninhos.

Sequência de fatos: ontem eu pensei na minha irmã no meio da rua – mas tava sem bateria pra escrever pra ela na hora. Aí chego em casa, boto o celular pra carregar e, puf: ela me escreve. Essas coisas de sintonia, que pra gente é diferente: somos irmãs por parte de pai e praticamente nunca moramos na mesma casa (apenas por alguns meses). As pessoas olham pra gente e o último que imaginam é que somos irmãs. Mas nós somos. E por causa da vida, e das circunstâncias, construímos essa sintonia – diferente, mas igualmente forte.

E nossas memórias de irmãs também existem. Como essa música infantil toda em inglês, que sabemos a letra inteira e nem sabemos como aprendemos tudo em inglês sendo tão pequenas. Pra gente, uma rodinha de violão é bem mais que um luau de adolescentes. Nela tem uma pasta preta de música cheia de Caetano, Milton Nascimento, Almir Sater e Roupa Nova. Pra gente, os nostálgicos biscoitinhos da piraquê não podem ser comido em outra situação a não ser em uma viagem de ônibus. E, aliás, canja é a comida mais adequada pra quando se chega ao destino final. Somos PHD na arte de limpar camarão. E, não sei se ela se lembra, mas a gente também tem a nossa música. E é essa aqui:

E esse é o nosso comercial de TV:

Esse, é o quintal onde a gente brincava nos finais de ano. E os nossos queridos avós de quem sentimos e sentiremos tanta falta. Cantamos o abecedário da xuxa inteiro correndo nesse quintal em círculos, e está tudo registrado num VHS.

 

E essas somos nós.

bateria

Esses dias ela fez aniversário, e esse é meu jeito de dizer que, mesmo longe, estarei sempre enviando pensamentos positivos através desse nosso elo de sintonia que, contrariando muitas expectativas, se formou. 🙂