12 Curiosidades sobre a cultura diária argentina (por quem está imersa nela)

Tem coisa que só anos de Argentina te ensinam. Além disso, sou uma brasileira na Argentina que tem uma diferença em relação a outros brasileiros que também estão por aqui: estou inserida numa típica família argentina. Tenho amigos que vivem ou viveram aqui por muitos anos, mas quando comento algumas dessas coisas eles não conhecem. Están listos?

1. Bebidas diferentes

bebidasO Fernet é a clássica bebida argentina que, se você for numa festa de argentinos, com certeza vai provar. Mas tem outras bebidas típicas daqui que são pouco conhecidas pra gente: Gancia e Cinzano são duas bebidas alcólicas chamadas de “aperitivos”, que são servidas com soda antes de comer como um drink pra abrir o apetite (há quem diga que estão ultrapassadas). O Terma é uma bebida sem álcool, bem concentrada e servida com água – tem um gostinho de ervas, é como uma água saborizada bem natural e suave.

2. Banheiro sem chave

Minha mãe foi quem reparou nisso, e é verdade que em muitas casas o banheiro não tem chave. Perigo!

3. Aplausos
aplauso pal

Já comentei aqui que os argentinos aplaudem no cinema e no avião depois do pouso. Mas é costume também aplaudir o churrasqueiro – se diz “un aplauso pa’l asador!”, para dizer que o asado ta gostoso.

4. Suerte

Eles ADORAM falar isso. No Brasil o “boa sorte” é usado quando a gente quer realmente desejar sorte pra alguém em alguma situação especifica. Mas aqui, o sorte é como uma saudação de despedida.

-Bueno, nos vemos.
-Chau, suerte!

E no lugar de desejar o que seria “buena suerte”, às vezes eles falam “éxitos”! O que eu acho muito mais legal. Porque ter êxito em alguma coisa é muito melhor que ter sorte, né?

5. Bom apetite

Eu não lembro se no Brasil é tão comum as pessoas falarem bom apetite. Falam, mas não todos os dias do ano da sua vida inteira. Aqui a pessoa não pode te ver com um prato na mao – eles vão falar “buen provecho!” – seja onde for.

6. Termos polêmicos. Gorda, eu?

Essa é complicada. Eles tem uns apelidos carinhosos que pra gente são estranhos: gordo e gorda. É SUPER comum os casais se chamarem assim. Além disso, se você chamar uma pessoa de flaca / flaco, geralmente é com um pouco de desdém. E, POLÊMICA MAIOR DO MUNDO: Negro e Negra. Acontece de também usar o termo pra falar com amigos e conhecidos de maneira carinhosa, MAS infelizmente eles usam isso muitas vezes de maneira pejorativa – mas juram que não tem nada a ver com a cor. Normalmente é usado acompanhando por cabeça “sos um negro cabeza”, que significa que é uma pessoa ignorante e cafona, mais ou menos. Se aplica pra quando alguém faz merda achando graça, ou quando alguém tá endividado e mesmo assim compra o carro do ano… tem um significado bem abrangente, e não sei bem qual seria o equivalente em português. O que me contaram é que a expressão vem da época de uma forte migração interna nos anos 30 protagonizada pelos “cabecitas negras”, trabalhadores rurais que vieram pra capital e ganharam esse apelido nada carinhoso. Eles não eram negros (aqui não tem negros afro-descendentes, praticamente), mas sim tinham o cabelo escuro e a pele morena. Acho péssimo, continua sendo racista.

O último termo polemico: Viejo/vieja. Sabem quem eles chamam assim? OS PAIS. Seja a idade qual for. A gente ouve o tempo todo:

-Voy a la casa de mi vieja

-Hola vieja, estás em casa?

Minha mãe não aprovaria.

7. Estereótipos

Indo para 5 anos de Argentina, já me sinto profundamente influenciada pelo estereótipo argentino. E noto isso simplesmente porque me sinto bem com meu corpo. Eu piso no Brasil e me sinto estranha – porque mulher no Brasil é gostosona e tem cabelo liso / alisado. Eu sou super magrinha e tenho cabelo enrolado. Eles acham meu cabelo o máximo (talvez porque não seja comum), e o ideal de beleza aqui é mulher MAGRA. Não que isso seja legal, mas eu que sou magra naturalmente senti essa diferença na percepção que passei a ter do meu próprio corpo. Sei que a moda em geral usa essa imagem da mulher super magra, mas a mulher “das ruas” no Brasil é malhada: pernão e bundão. Cade o país onde ta tudo bem ser magra, malhada, gorda, etc.?

8. Cuidado ao pisar

Se chover, cuidado. Se os zeladores lavaram a calçada na frente dos prédios, cuidado também. Por um motivo que não consigo entender, em Buenos Aires eles usam um material PÉSSIMO pras calçadas, que quebram sempre ou ficam soltos, e um belo dia você tá andando e espirra água no seu pé e na sua roupa.

9. Anos 80 “a full”
cerati

Eles são super “ochentosos”. SUPER. As bandas dos anos 80 são até hoje as melhores e as que todo mundo escuta. A maioria das rádios toca MUITA música dos anos 80. E até os looks do pessoal na rua é meio anos 80.

10. Rivalidades

A nossa rivalidade com os Argentinos não é exatamente recíproca. Eles nos amam, são super curiosos, adoram musica brasileira e muitos conhecem mais o Brasil que eu. Faz mais sentido dizer que eles têm rivalidade com os ingleses (por Guerra das Malvinas reasons) ou com os chilenos – que não sei o motivo, mas eles realmente não se bicam.

11. Almoço de Domingo

pizzaAcho super estranho, até hoje, almoçar pizza no domingo. Ou empanada. Aliás, em qualquer dia. Pizza na minha cabeça é uma comida noturna! Pra vocês também? Aqui é uma atração digna de almoço de domingo. Tudo bem que a massa é caseira, feita pelas mãos abençoadas desses filhos de imigrantes. Mas, convenhamos, é muito mais bonito ver uma mesa de domingo cheia de coisas: arroz, feijão, salada, carne, farofa, maionese, etc etc etc.

12. Favor evitar

Se vocês acham que falar de política no brasil é complicado, vocês tão só começando. Aqui já é assim faz tempo. Sem entrar em detalhes: simplesmente não vale a pena. Se a frase tiver os nomes “Kirchner”, “Perón” ou “Menem” no meio… esteja preparado ou nem tente.

3 thoughts on “12 Curiosidades sobre a cultura diária argentina (por quem está imersa nela)

  1. Mariana Sanchez Novembro 13, 2015 / 1:34 pm

    Muy bien, Luiza! Adorei o post. Sim, alguns desses pontos também me intrigam (o banheiro sem chave, genteee!), outros até me comovem (os aplausos são tão fofos. E os cumprimentos entre homens com beijos? Acho muito amor). De qualquer forma, é na linguagem que as coisas complicam. Sempre achei bizarro eles usarem “quilombo” pra “confusão”, “bagunça” ou “zona”, ignorando a etimologia de “quilombola”. E “cabeza” é um termo horrível, sim. Quanto a “flaco”, acho que é só uma forma carinhosa e coloquial, mesmo (como gorda/o, che ou até boluda/o, dependendo do contexto), não sei se tem esse sentido de desdém. Aliás, conhece esse dicionário? Acho mara: http://www.asihablamos.com/

    Besitos, flaca 😉

  2. Celma Lagedo Novembro 16, 2015 / 8:28 pm

    Como boa curiosa, adorei ficar sabendo mais estas e confesso que algumas delas presenciei, principalmente a número 8. Rsrsrs.

  3. It's Ella! Dezembro 9, 2015 / 9:36 am

    Olá Luisa, eu sou Portuguesa mas vivo em Espanha e vejo alguma semelhanças com o que escreveste. Esse hábito de chamar gorda/gordo como termo carinhoso também me parece estranho, para não falar do morena! Tipo : Hola morena, te ayudo? Eles acham carinhoso, eu acho um pouco discriminatório.

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