Crise profissional: quem nunca?

spring-laurel-_-be-braveTô querendo escrever esse post há, no mínimo, 1 ano. Mas naquela época, a frustração era muito grande pra conseguir transformar o sentimento em motivação. Há mais ou menos 9 meses, as coisas mudaram. Primeiro eu pensei: vou esperar passar um tempinho, os 3 meses de experiência pelo menos, pra não cantar vitória antes da hora. Depois disso, fiquei muito ocupada e acabei sempre deixando pra depois.

Hoje eu continuo ocupada, mas vim aqui. Porque alguém passando pelo que eu passei pode terminar vindo parar aqui. E vai que eu consigo ajudar? Vamos lá. Como o título indica, esse texto é sóbre trabalho. Sobre carreira e sobre encontrar o caminho e sobre a crise que, pra mim, foi inevitável. 

Sem saber direito porquê, estudei publicidade. Já vinha meio indecisa, abandonei jornalismo no comecinho, quis arquitetura, depois desenho industrial, e praticamente na fila do vestibular mudei de ideia. Sou mais uma pra confirmar: aos 18 anos, quase ninguém tem ideia do que quer fazer da vida. Na metade da faculdade me agarrei numa oportunidade de estagio e fui me dando “bem”. Trabalhei como redatora alguns anos, em agências pequenas e numa cidade pequena. Mas nunca amei o trabalho de criação em agência. Simplesmente isso: nunca amei, não tinha o tesão que via em meus colegas. Que não necessariamente amavam seus trabalhos, mas eles se identificavam e se sentiam a vontade ali. Eu não. Brainstorming coletivo, por exemplo, não é comigo. Gosto de ter minhas ideias quietinha no meu canto.

Aí que: decidi viajar, larguei tudo, fui embora. Falando “vou trabalhar de qualquer coisa, vou morar um tempo fora, fazer uns cursos, tô nem aí”. Luiza de hoje diz pra Luiza de ontem: para de besteira, fazendo o favor.

Em 2011 cheguei na Argentina e, depois de uns meses vivendo de economias, não tinha jeito: precisava trabalhar. E sem saber direito o que queria fazer, fui pra um trabalho que procurava alguém que falasse espanhol, português e inglês. Naquela época meu espanhol e meu inglês ainda estavam meio fracos, mas um trilingue é tão difícil que eles acabaram dando um desconto. Entrei. O trabalho? Não tinha nada a ver com publicidade. Nada de comerciais, nada de títulos, slogans, jingles, briefiengs. Um trabalho pra pagar as contas. Fui levando, até perceber que estava presa. Tinha deixado de lado “a busca” e me acomodei em um trabalho que não tinha nada a ver comigo. Me acomodei tanto, que fiquei boa. Fui promovida. Mudei de departamento. Fui reconhecida. Me destaquei. Fui hunteada. Mudei de trabalho, fui boa de novo. E aí pirei. Já não dava mais. Três anos se passaram e eu tava enlouquecendo, pensando que não poderia fazer aquilo por muito tempo mais, mas não conseguia olhar pra fora. A essa altura eu já tinha entendido que poderia fazer MIL COISAS dentro de comunicação e publicidade que não eram trabalhar na criação de uma agência. Mas aí, já tava mais velha. Meu currículo já tinha ficado estranho. Eu olhava pro meu currículo e pensava: eu jamais me contrataria. É praticamente um gap de 3 anos. Como eu tinha tanta certeza? Eu trabalhava como recrutadora. Tcham.

Quem vive nessas crises (e recrutadores em geral passam por muitas delas, já que é um trabalho um pouco estranho e, me arrisco a dizer, de transição) passa por dias bons, dias neutros e dias péssimos. Em dias péssimos eu chegava em casa arrasada. No trabalho, olhava pro computador e nada daquilo fazia sentido. Volto a dizer: eu era boa. Tinha um trabalho legal. Trabalhava numa empresa muito bacana. Meu salário não era ruim. Mas eu tava enlouquecendo. O que eu fiz? Google. O que resolve todos os problemas. “Conteúdo + português”. Conteúdo era uma área pela qual eu simpatizava muito. E só precisava achar uma vaga que precisava de mim, ou, melhor dizendo, do meu português. Fiz isso várias vezes. E um dia, ali estava ela: uma vaga pra mim. Vou citar as palavras chaves que saltaram na minha frente: conteúdo, web, televisão, séries, filmes, português. Do mesmo jeito que agarrei aquela oportunidade de estágio na faculdade, eu enviei um e-mail imediatamente com meu CV. Na mesma semana me chamaram. Fiz a melhor entrevista da minha vida – a base de muita reflexão e amadurecimento de como eu poderia transformar minha experiência aparentemente inútil em algo que me ajudaria muito. Arrasei. Mesmo. E entrei.

Há 9 meses, respiro aliviada. E cada vez que vejo nos corredores a recrutadora que me chamou, dou um abraço nela, querendo dizer “obrigada por ter acreditado no meu CV esquisito”. Não sei se eu vou fazer isso pro resto da minha vida, mas me vejo nisso por muitos e muitos anos. Encontrei uma fórmula que funcionou pra mim: um trabalho que precisava das minha habilidades. Todo mundo é bom em alguma coisa, e eu achei um trabalho que precisava justo dessas minhas coisas boas. Não tenho aquela  ilusão de amar loucamente o que faço – isso é para poucos. Um trabalho precisa, sim, pagar as contas. E precisa também motivar. E com isso, junto com uma boa dose de qualidade de vida, fico satisfeira.

E sabe o que é mais curioso? Aquele amadurecimento de transformar minha experiência em algo útil, não foi papinho de entrevista. É a mais pura verdade. Trabalhei em algo que não tinha nada a ver com nada, mas tive experiências muito valiosas. Tive chefes maravilhosos, companheiros incríveis – outros nem tanto, mas que tiveram seu papel na história toda. Pisei em multinacionais pela primeira vez, melhorei HORRORES meu nível de inglês quando me vi tendo que fazer apresentações em inglês numa conferência telefônica – e, mais que isso, ganhando um concurso de apresentações da equipe. Me pergunto às vezes se eu estaria preparada pro meu trabalho de hoje se não fosse por tudo isso. E na maioria dessas vezes me respondo: acho que não.

Ah, a vida. Essa danadinha.