Justificativas

Sou vítima dessa síndrome. Sempre que falo do meu trabalho, principalmente com alguém que sabe que me formei em outra coisa e trabalhei com outra coisa por alguns anos. Parece que antecipo a reação das pessoas e vou logo me explicando. Como se eu soubesse que todos estão pensando “mas como assim? seu outro trabalho era tão mais legal!” – e vou logo dizendo que “não tem glamour, mas coloca comida na mesa”. Fui “criada” na faculdade de comunicação e um trabalho com glamour quase sempre faz parte do status do profissional bem sucedido. Mesmo que eu não fosse mais feliz com o trabalho anterior do que sou com o atual. Mesmo que o meu trabalho atual me permita viver muito melhor com um salário muito mais digno, mesmo que longe de ser perfeito, e mais longe ainda de ser o trabalho da minha vida.

Hoje uma pessoa da empresa voltou de férias. Todos perguntavam: “e aí, como foi??” – e ele respondia que “foi sensacional, MAS…” justificativas. A explicação era que as férias foram muito boas, mas não foi zoação e festa. Foram férias tranquilas. Mas veja bem, ninguém sabe! E mesmo assim, ele precisou justificar.

Meu trabalho, minhas férias, meu cabelo, cabelo corpo, minhas escolhas. É tudo meu. É tudo seu e é tudo de cada um. E mesmo assim a gente se pega justificando pros outros, porque é que estamos fora do padrão. Porque é que não trabalho com o que amo (mesmo que eu não saiba o que amo), porque não tive férias de comercial de cerveja, porque não aliso o cabelo, etc etc etc etc.

Como escapar?

Why so hard

Como todo mundo sabe, a vida não é fácil e coisa e tal. E a minha, não posso mentir ou reclamar, não é muito difícil. Problemas toda família tem, mas amor os meus pais sempre souberam dar. São sensatos e sempre me dá um alívio pensar na minha família quando vejo essas famílias venenosas e armaguradas, que a mãe desconta as frustrações da vida nos filhos, que ninguém torce por ninguém, que só sabem apontar o que está mal no outro e assim seguem pela vida inteira. Temos muitos buracos, mas esses não.

Sempre tive uma vida confortável. Tive uma boa educação, me formei, e por mais que tenha ido pra outro lado completamente diferente e não ser exatamente feliz com isso, tenho um emprego que me deixa viver. E ainda tenho tempo e possibilidade de encontrar o meu caminho.

Me considero íntegra, sensata e, em determinadas situações, forte. Tenho um senso de humor digno, aprendi a lidar com minha personalidade e usar o que antes eram fraquezas pra me fazer ser melhor. E com isso conquistei bons amigos. Já não me importa o número – quando era pequena, ao invés de sonhar com o casamento, tudo o que eu queria era ter uma grande turma de amigos. Hoje tenho os amigos, e de brinde também tenho um homem incrível do meu lado.

Além do amor, a saúde. Também tenho.

Mas porque a vida continua sendo difícil? Não sei. Vai ver que a difícil sou eu. Às vezes, quero acreditar que com todo mundo, bate aquele desespero. Tá tudo certo? Estou no caminho certo? Vou dar conta disso tudo? Vou surtar lá na frente como muitos surtam? Eu realmente amadureci ou estou fingindo? Meus amigos ainda estão por perto? Eu estou endurecendo demais?

Passa, sempre passa. Mas que é difícil, é.