Um caderno encontrado, um texto perdido

No meio da mudança, acabei achando coisas perdidas – como os inúmeros bloquinhos e cadernos que coleciono.
E em um deles, uma surpresa: um texto que deve ter mais de um ano, que escrevi provavelmente apressada dentro do ônibus. A unica parte real, que inspirou a história toda, foi o cachorro que eu realmente vi 🙂

Era pior. Por mais que soubesse da infinidade de grandes problemas muito mais sérios (como todos os desastres da humanidade de caráter incontestável), esse dia tinha um desespero impiorável.

Ela, comendo sozinha em um restaurante cheio e ruidoso, silenciou o mundo e se perguntou em que momento ela simplesmente perdeu o controle. Tudo estava fora. Fora do lugar, fora do normal, fora da sua vida. E a culpa era de todo mundo. Não adiantava que ela, sozinha, fizesse certo. O mundo era muito duro e ia acabar com tudo de qualquer jeito.

Comeu sem pensar no que tinha pra fazer depois. Não sabia mais se era o trabalho, se tinha uma reunião, um encontro, os amigos, os pais, sua irma. Não importava. Saiu de lá e caminhou, sem pensar também na distancia. Podia ser uma quadra, podiam ser quarenta. Andou olhando para baixo, contrariando todas as regras da confiança e auto estima.

Enquanto olhava pra baixo, passou os olhos por um par de pernas sujos de alguém que estava sentado ali, no chão, no meio da calçada, sem se importar com quem passava, onde estava e o que tinha que fazer da vida. Exatamente como ela se sentia naquele momento.

E quando ela já tinha transformado seu dia num drama completo, seu celular tocou. Tocou uma música que avisava quem era – e era ele. Era a música deles. Não podia ser outra pessoa.

Ela parou de andar. Viu que estava a uma quadra de casa. Já não havia mais ninguém em volta e ela não sabia o quanto tinha andado. Um silêncio absurdo, tocando insistentemente. Antes de começar a pensar em atender, alguém lhe gritou de cima. Um vira-lata enorme, com uma coleira verde e velha, no alto de uma casa com a cabeça entre as grades da varanda, latindo e olhando nos olhos dela sem piscar.

Conversaram assim até o telefone, cansado, parar de tocar.Três segundos e o telefone volta a tocar, interrompendo aquela conversa muito mais importante. Sem pensar, rejeitou a chamada. Em seguida, veio uma mensagem: “estou na porta do seu prédio. vim conversar”.

Latindo, o cachorro desviou seu olhar dela para ele novamente. E ela entendeu.
Sua casa estava logo ali, dobrando à direita.

Ela olhou pra cima de novo,  pegou o celular e tirou uma foto do único que conseguiu escutá-la naquele dia. Sorriu pra ele. E virou à esquerda.

Home, new home!

Minha casa, o mini apartamento que já apareceu no blog em meio a caixas amarelas e vistas lindas da varanda, está com os dias contados. Estou rodeada de tralhas, me despedindo de muitas e levando algumas outras porque o desapego ainda precisa ser desenvolvido.

Vendo e tirando as fotos das paredes, achando papéis com coisas que nem lembrava ter escrito, e enchendo sacolas com coisas pra ir pro lixo – pensando que junto muita tranqueira e que no fundo não preciso de nada disso.

Já mudei mais de uma vez pra começar algo novo, sempre com frio na barriga. Sempre sem saber o que ia encontrar, sempre com muita coragem mas sem nenhuma ideia do que estava por vir.

Aí que dessa vez não. Estou me despedindo de um apartamento que foi bom enquanto durou, de coisas que fizeram parte do meu espaço e só de mim.

Agora vou sem frio na barriga, com uma certeza que nunca tive antes. Estive acompanhada até então pela sorte, que fez tudo dar certo de um jeito ou de outro. Mas agora vou acompanhada por muito mais. If you know what I mean =)

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Querendo menos

Ontem, enquanto andava apressada por uma avenida cheia de lojas e de gente, escutei duas mulheres comentando:

-Você conhece o SÚbway? (sic)
-Uhum! Ai, você precisa conhecer, porq…
-JÁ CONHECI!! Eu já to viciada!! É tipo McDonald’s antes, sabe?
-É verdade! Os de frango são uma delícia!

Minha primeira reação foi me sentir superior. Porque sei pronunciar Subway e porque conheço o subway há anos.

Minha segunda e atual reação foi me sentir minúscula. Porque deve ser muito bom viver num ambiente no qual não importa se você sabe como falar subway, e muito menos se você descobriu a “novidade” bem depois de todo mundo.

Seguramente existe um mundo em que pessoas saibam de mais novidades que eu, e que sabem também pronunciar coisas que eu não sei.

Mas eu fiquei com inveja das duas mulheres porque no mundo delas, isso não importa nada. A emoção e o deslumbre de descobrir algo novo, sem importar como se chama e sem importar há quanto tempo existe, parece ser muito mais interessante.