Sobre os vizinhos

Comecei a ler um livro que ganhei há um tempo, Mundo ao Lado do Arthur Simões, que viajou pelo mundo de bicicleta e registrou tudo.

Saindo do Brasil, o Arthur cai em outros países da América Latina (Paraguai, Peru, Bolívia, Chile e Argentina), e ler suas impressões sobre ser brasileiro e ser latino americano foi como ler o que eu senti quando cheguei e o que continuo sentindo até hoje depois de quase 3 anos fora.

“(…) Enquanto subia a costa do Pacífico pela rodovia Panamericana, descobria uma América do Sul desconhecida para mim e para a maioria dos brasileiros. Inseridos numa geografia completamente diferente da brasileira, assim como num contexto histórico e cultural bem distinto, os países de língua espanhola compartilhavam muito entre si, tanto comercial como culturalmente  Ao notar isso, senti como se houvesse saído de uma ilha ao deixar o Brasil pra trás. Sentia que, para o brasileiro, havia o Brasil e nada mais (…)”

Isso acontece todos os dias. Todos os dias eu olho ao meu redor e vejo coisas que simplesmente não faziam parte do meu mundo. Quando estou na rua e vejo paraguaios conversando entre si em Guarani – que eu não fazia ideia de que é a primeira língua deles; quando vou comprar fruta e quem me vende são os peruanos. Quando percebo que aqui não há negros nativos, mas são os bolivianos pobres que sofrem muito preconceito. E com detalhes bobos também. No meu primeiro mês aqui uma pessoa ficou indignada porque eu não conhecia “o Sabina”. Aparentemente ele é um músico muito importante, mas até hoje nunca terminei de descobrir. Confesso que o tema celebridade me dá muita preguiça e na maioria das vezes penso “não sei e não sei se quero saber”, a não ser que se trate de bandas, artistas e personagens realmente importantes. No Brasil existe uma certa resistência à musica cantada em espanhol, e um pouco dessa resistência me acompanha até hoje. Ela fez a gente nunca saber que vários sucessos brasileiros são, na verdade, versões de artistas latinos. O personagem do Sidney Magal, por exemplo, é altamente inspirado no Sandro:


Dá pra dizer facilmente que o Brasil é uma América Latina a parte. Ou, na nossa visão, que os demais países são uma metáfora do Brasil e seus estados. Tem sotaques diferentes, comidas típicas de cada região, costumes e até mesmo tem um nordeste que vai pra cidade grande: aqui em Buenos Aires a maioria dos obreiros e empregadas domesticas são do Paraguai. E é o Paraguai também o país do pão de queijo, que eles chamam de chipá. Eu confesso que me surpreendi inclusive ao ver a fígura típica do Argentino, que pra mim era o típico gaúcho do Sul do Brasil. Na verdade era o contrário. E descobri que não, o tango não é a música que melhor representa a cultura argentina. A música típica é o folklore que, adivinha? É bem parecida à música gaúcha.

gauchos
Foto da Fiesta de la Tradición, que acontece todos os anos em San Antonio de Areco

Por um lado me sinto egoísta – e “vítima” de uma cultura tão fechada. Por outro, vem a sensação de não ser daqui mas mesmo assim entender isso tudo muito bem.

Só não entendo como a Argentina tem uma brasileira famosa que mora aqui há mais de 20 anos, mas que eu pelo menos nunca tinha ouvido falar.

Anamá Ferreira, a brasileira mais famosa da Argentina. Modelo famosa nos anos 80.

4 thoughts on “Sobre os vizinhos

  1. Eleo Novembro 11, 2013 / 10:07 pm

    Anamá además es la modelo brasileña mas famosa en Argentina que -creo yo- logro el record de no lograr aprender hablar el español después de vivir 20 años en Argentina!

  2. Kathya Stryzak Novembro 19, 2013 / 7:25 pm

    Grande Anama!!
    Lembro uma vez que ela nao foi convidada para a festa da embaixada no Brasil…e fez um escandalo em uma radio falando isso…
    Como nao me convidaram? eu sou a brasileira mais importante que vive na Arg…

    hahhahahahahahah !!
    Pior e que quando encontro com ela..ela fala em portunol e nao portugues…mais eu respondo ela em portugues oras!

  3. Eleo Novembro 25, 2013 / 12:39 pm

    jajajjaja para vos ¿se olvidó el portugués? o es puro marketing? 😀

    • Luiza Novembro 25, 2013 / 1:17 pm

      es marketing!!! ya me contaron de haberla visto en la noche hablando “en porteño” como nativa!!

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