Me ajudem

Vim encarecidamente fazer um pedido, do fundo do meu coração. Preciso de ajuda.

Ultimamente ando fugindo de gente tranquila demais, feliz demais, de elogios e de boa educação. Eu acho. Ando desfrutando reclamar da vida e das pessoas, junto com uma amiga que faz isso melhor que ninguém. Deve ter virado o novo “a amiga que tem o melhor ombro pra chorar”.

Mas sabe o que é? Já não sei mais distinguir elogios de pedreiragem. Já não acredito que os vizinos sejam gentis. Já não confio em quem é feliz e aberto e solícito demais.

Outro dia eu estava realmente muito nervosa, em um dia muito difícil. Estava saindo do metrô, pisando com muita força em cada degrau da escada. Um homem com cabelos brancos, nos seus 50 anos, jeito de caipira, me diz: “que cabelo lindo! e que lindo penteado!”. Tudo bem que meu cabelo costuma chamar a atenção por aqui. Mas nesse dia eu estava me sentindo a pessoa mais feia do planeta. E Buenos Aires é cheio de tarados que soltam frases engraçadinhas a cada esquina. Como confiar? Por mais que cabelo esteja longe da categoria “cantadas de sacanagem”, fiquei muda e subi as escadas correndo.

Meus vizinhos gritam o tempo todo. No meu prédio estão os exemplos perfeitos de como os argentinos conseguem ser italianados, gritando o tempo todo. E brigam. E me olham com cara feia, porque parece que tiveram problemas com o dono do meu apartamento que, coitado, já morreu. Ficou o filho, que é um amor.

Hoje uma menina que trabalhou comigo por alguns meses e com a qual tive contato 3 numa escala de 0 a 10, resolveu (mais uma vez) que era minha melhor amiga. Pediu meu whatsapp porque PRECISAVA me contar uma coisa. Ela vez ou outra comenta nas minhas fotos, diz que esta com saudades, participa da minha vida pelo Facebook ativamente e eu… a ignoro, sempre. Mas fiquei curiosa, o que ela poderia ter de interessante pra me contar? Menti dizendo que não tinha whatsapp. Mas que ela poderia me contar por mensagem mesmo. Aí que ela só queria contar que comprou uma bicicleta nova e que ela achou que seria muito legal se nós saíssemos pra andar juntas pela cidade num final de semana. Ela é simpática, muito simpática, muito amável, MUITO LEGAL. Legal demais. Não respondi. Depois de meia hora ela me cobrou, comentando numa foto: “recebeu minha msg?”. No final do dia, a bloqueei do Facebook.

Então, estou aqui, pedindo ajuda. Pra me lembrarem de quando uma menina de 4 anos na fila da padaria, com o cabelo liso-como-eu-sempre-quis-ter, disse: “que legal o seu cabelo!”. De quando o cara que pesa as frutas disse que também amou, e perguntou se os meus cachos se formavam sozinhos ou se eu tinha que fazer um por um todo dia. De quando as pessoas querem encostar no meu cabelo, só porque é legal.

Pra me lembrarem de quando eu fiquei sem luz por motivo desconhecido, perguntei pra uma vizinha se ela não conhecia um eletricista, e a mulher passou 1h comigo pra cima e pra baixo pela vizinhança porque ela sabia o que era. Eu não estava acreditando, mas a segui por educação. Conseguimos fio de cobre na oficina da esquina depois de (ela) falar o que tinha acontecido pra meio mundo na rua. E ela, com toda a coragem que eu não tenho, se meteu no quadro de luz do prédio e fez minha luz voltar. Agora tenho luz e me sinto mais segura na minha rua, porque conheço os caras da oficina e os meninos do prédio ao lado que vivem sentados na calçada.

E, bem, pra me lembrar que – em níveis moderados – pessoas extremamente simpáticas podem ser bem-vindas.

Por último, queria pedir que além de me lembrarem de tudo isso, não desistam: eu ainda aceito convites pra andar de bicicleta por aí.