Fomos enganados!

rulos

Rulos. Em espanho, esse é o nome. RRRrrrrrrrrrulos. Há quase dois anos (!) estou na Argentina. Argentina, a terra dos italianos nascidos na América Latina e que falam espanhol. A terra do cabelo liso. LISO. Enormes cabelos lisos, pesados, por todos os lados.

Pra vir pra cá, deixei de fazer tratamentos químicos no cabelo, pois sabia que nao ia achar nenhuma sede do Beleza Natural. Aos poucos (ou não), fui passando a tesoura até chegar na liberdade total. E eis o que aconteceu:

O cara que pesa as frutas no supermercado, a atendente da padaria, a menininha de 5 anos atrás de mim numa fila, a senhora me encarando na mesa ao lado da cafeteria, as pessoas que trabalham comigo, olham pra mim e dizem:

“…que lindos rulitos!”

Nos dias que meu cabelo fica arrumado demais e “pra baixo” demais, fico querendo que ele fosse um pouco mais “duro”, que se jogasse um pouco mais pra cima. No ano passado, fui a um casamento no Brasil e quando fui provar meu vestido na costureira (aí), ela me perguntou: “e seu cabelo, vai alisar pro casamento?”. Não, eu respondi. Ela ficou em silencio, quase que constrangida por mim.

Esse nao é um post do orgulho das raizes nem nada disso; eu só queria mesmo dizer pra todas as brasileiras com o cabelo enrolando que não é nada disso, minha gente. Cabelo baixo e grudado na cabeça não é mais bonito. Cabelo alisado, muito menos. Demorei 20 anos pra comecar a entender isso e precisei vir pra um lugar onde quase ninguém tem cachos pra ter certeza. Quando eu vejo alguém na rua aqui com o cabelo BEM PRA CIMA, sei que não é uma argentina, mas também sei que quase nunca é brasileira – na maioria das vezes as negras lindas e com cabelos divinos e assumidos são americanas, inglesas, etc.

Aviso dado. Palavra de quem passou a achar o cabelo mais bonito no momento em que acorda.

A pequena.

São 17:57. Em ponto. Será possível? Todos tiveram a mesma ideia? A semana inteira, são 5 dias, 5 oportunidades, e eu  não consegui nenhuma. Uma grávida. Uma senhora. Uma mãe. Eu. Todos merecemos. TODOS. É a minha opinião. Ninguém está na minha pele para saber que não sou digna de merecer também. Mereço. E hoje, mereço mais. Eu fico grávida, fico velha e mãe, tudo ao mesmo tempo. E vocês ficam eu. Parece pouco? Só porque sou pequena? Então vem, a gente troca e aí que quero ver quem merece mais esse lugar sentadinho no metrô.

Ana Paula tem 29 anos. É morena. Tem cabelos curtos e é mignon. Ela trabalha em uma empresa de muitos funcionários e muitos andares em um prédio alto do centro. Hoje o seu chefe negou seu pedido de aumento, seus colegas de trabalho não a esperaram para entrar no elevador e o cara que ela conheceu há algumas semanas parou de responder suas mensagens. No fundo, ela sabe que a senhora no metrô tem mais dores (nas pernas e na vida). Mas, se ela oferecesse o lugar, Ana Paula aceitaria.