Um quase post sobre Buenos Aires

Eu ia escrever um texto sobre a diferença entre o que eu vejo de Buenos Aires e o que todos os turistas brasileiros veem.

Estou desistindo, porque não quero ser essa pessoa que vai dizer que é tudo mentira. Porque não é.

Antes de mais nada, eu gosto daqui. Apesar de toda a bagunça, da desorganização, do governo bizarro, a cidade ainda consegue encantar por outras coisas.

Sou super a favor de ver o lado positivo das coisas, afinal, ninguém viaja pra conhecer a parte feia dos lugares.
Mas me dá uma ponta de incômodo quando vejo o pessoal idolatrando a evita sem saber nada além da madonna cantando na janela, ou dizendo que gostaria de trocar os ônibus do brasil pelos ônibus cheios de “personalidade” daqui, ou que aqui é muito seguro e todo mundo pode andar pela rua de boa a qualquer hora.

Sejamos turistas, mas sejamos sensatos. Se é pra idolatrar alguém, que seja a Mafalda : )

Outro dia

Nos metrôs de Buenos Aires, em horários de pico, é cheio de vendedores / gente pedindo dinheiro / músicos, etc. Eu já notei há um tempo que eles tem um código de ética: se tem alguém “em atividade” em algum vagão e outra pessoa chega para esse mesmo vagão, tem que ficar quietinho esperando a pessoa anterior terminar. Quase nunca falha.

Mas aconteceu, outro dia. Um velhinho cego que sempre está na linha D pedindo dinheiro foi interrompido por um menino, que passou distribuindo papeizinhos com mensagens apelativas enquanto o velhinho falava a sua mensagem. O velhinho não sabia – com o movimento de gente no vagão, era só mais uma pessoa.

Aí que: tinha alguém de olho. Um senhor com dread locks e uma guitarra deu um chega pra lá no menino. Não por ter furado a fila na sua frente, mas por ter se aproveitado do velhinho que não podia vê-lo.

O menino foi embora, o velhinho também. E o senhor levantou e seguiu seu discurso, falou muito, em pé e olhando pras pessoas, que ele não podia acreditar na falta de respeito, e se lamentava dizendo que lugar de criança é na escola. As pessoas olhavam pra ele e se olhavam em seguida, rindo meio escondido. Era um senhor muito simples, e as coisas que dizia não eram nenhum lindo discurso, mas ele só estava querendo dividir o que sentia. Aí eu entendi: o senhor era brasileiro e estava falando em português. Só me dei conta na metade do discurso, era um portunhol 98% puxado pro português, e ninguém estava entendo nada. Eu entendi. E disse pra ele “é isso aí!” – minha manifestação não o alterou em nada porque, eu tenho certeza, ele pensou que estava falando em espanhol. E emendou uma honesta versão de “is this love” do Bob Marley, trocando o refrão por “es amor, es amor, es amor, es amor, lo que siento (…)”.

É isso aí.

1, 2, 3 e já ta pronto meu pedido?

Em épocas em que ando desativando a conta do facebook e regredindo o modelo do celular para fugir do wifi, fico me perguntando o que faço com as informações importantes, interessantes, curiosas, inventadas, que chegam ou que passam pela minha cabeça. E voltei pro que eu mais fiz e pro que eu mais soube fazer na internet: um blog.

Por antecipação, aviso e quase peço desculpas pelo que vem pela frente. Tenho rascunhos de muitos blogs de assuntos diversos que nunca deram certo. Sobre comida, banalidades, fotografia, meus textos, minha vida fora de casa, minha vida em Buenos Aires, sobre Buenos Aires em si, sobre coisas lindas da vida, etc. Aí cheguei à conclusão de que a única maneira possível de fazer isso dar certo, é seguir a fórmula que acontece na minha cabeça: tudo ao mesmo tempo em um lugar só.