Uma brasileira em Buenos Aires, ou quase isso

Oi, meu nome é Luiza e aos 24 anos eu saí de casa. Foi de uma hora pra outra, decidi que ia viajar (e que ia conseguir juntar dinheiro pra isso) e em alguns meses eu engordei a poupança, pedi demissão, vendi meu carro e parti. Era pra ser rapidinho, 1 ano, ou 3, NO MÁXIMO. Mas já são 6, e eu parei de calcular a data da volta há muito tempo. Hoje eu só volto pra casa – todos os dias, e saio do trabalho e vou pro meu lar porteño.

Como o título já entregou, eu estou em Buenos Aires. E, em 6 anos morando aqui, coleciono algumas coisas previsíveis que sempre acontecem quando as pessoas percebem que sou “estrangeira”. E também coleciono alguns sentimentos em relação a isso.

Eu sou a estrangeira. Uma parte de mim quer acreditar que as pessoas com quem convivo diariamente já esqueceram esse pequeno detalhe – por uma questão de me estabelecer de igual pra igual. Mas outra parte quer ser sempre, “aquela brasileira”.

As perguntas e constatações clássicas dos primeiros momentos. A primeira de todas: E de que parte do Brasil você é? (ainda que eles só identifiquem Rio e São Paulo), Você não sente falta da sua família? A que nunca falta: E você veio pra cá por causa de um argentino né? (a resposta é não, mas sim, não posso deixar de pensar que fiquei por ele, apesar de nunca ter pensado em voltar), Aquela pergunta que foca no clichê: Nossa, e vocês são tão alegres, você deve sentir falta disso! (eles realmente pensam que a gente vive em festa no Brasil, e eu sinto que frustro meus conhecidos por ser apenas uma pessoa normal) – e a pergunta mais assombrada de todas: MAS O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI???

O que eu tô fazendo aqui?

Eu vivo. É a minha resposta atual. Não no sentido poético. No sentido literal. Vivo aqui, como qualquer outro cidadão. Pago imposto, sofro tirando número pra ser atendida em qualquer lugar, comemoro um dia ensolarado, reclamo da umidade, ando de bicicleta pela cidade, gosto de me esticar no sol de alguma praça, reclamo dos taxistas, escuto Soda Stereo e às vezes até uso uma plataforma.

Eu tento esconder meu sotaque, e cada vez mais esqueço que não sou daqui. Não é que esqueço, mas simplesmente os dias passam e esse cotidiano é cada vez mais meu. Não existe mais aquela sensação de estar em outro lugar: estou no meu lugar, na minha cidade. E, parando bem pra pensar, é uma história que se repete. Aos 15 anos eu adotei outro lugar pela primeira vez e, hoje, coleciono endereços, sotaques e nacionalidades 🙂

 

13 Reasons Why – O que eu senti e por que eu não te recomendo a série

[contém spoilers, mas isso não é tão importante assim – dito por alguém que abomina spoilers]

Já vi muitos textos sobre a série por aí, já falei sobre ela com vários amigos e conhecidos, já deixei vários comentários em posts de várias pessoas. E achei que precisava desenvolver mais o assunto, até pra eu mesma poder digerir minhas impressões.

Como eu assisti a série: engolindo um episódio um atrás de outro, possivelmente do mesmo jeito que a maioria das pessoas viu. Em partes porque sou assim, obsessiva com esse tipo de conteúdo, posso ver 50 episódios seguidos de algo sem piscar. Mas muito também porque a série foi pensada pra levar o espectador a consumi-la desse jeito. Pensa bem: não havia necessidade. Tudo na série foi armado pra esticá-la o máximo possível e pra fazer você continuar ali, preso, adiando todos os seus planos simplesmente porque você precisava saber o que o Clay fez de tão grave. E, no fundo, ele não fez nada. Mas essa frustração acaba perdendo a força tamanha a bad que bate a essa altura da série.

Achei boa ou ruim? Razoável. Tem seu valor. Boa, definitivamente, não achei. Uma série que me faz ver todos os episódios em dois dias não necessariamente é boa, porque 1. sou fácil e 2. pelo que comentei aqui em cima. Ela foi bem montada, mas tem falhas de roteiro já mencionadas em outros textos – e a que mais me incomodou foi o bendito curativo na testa do Clay pra marcar o que era passado ou futuro (sim, só serviu pra isso, e era totalmente desnecessário, quase uma afronta à nossa capacidade de leitura das cenas e de outros artifícios mais sutis).

Como foi a bad pra mim: foi pesada. Fiquei mal, revirei na minha cabeça coisas que já estavam enterradas, e depois de terminada a série eu fiquei com toda aquela bad aflorada pensando “e agora, o que eu faço com toda essa bad?”. Do alto dos meus trinta anos, olhei pra minha bad, sofri e aos poucos engoli ela de volta pra dentro de mim, tentando enterrar de novo situações e pensamentos que não são nada bem-vindos. Mas isso me incomodou profundamente: eu tento 30 anos, e uma grande parte do público dessa série tem menos. E as bads deles não estão enterradas e eles não vão só dar uma olhadinha nelas – elas estão bem vivas e depois de ganhar intensidade eles também vão ficar sem respostas – porque a série não traz nenhuma.

Pra quem essa série pode ser útil: pra quem é algum dos “motivos”. Pra quem acha que não tem impacto na vida de todos os que estão ao seu redor. Sim, todos. Não impactamos só nossa família e amigos próximos. Somos parte da vida do porteiro, do vizinho, da menina que esbarramos no ônibus, do caixa do supermercado. Pra quem precisa aprender sobre empatia.

O que faltou, na minha opinião: mais consistência e responsabilidade. Uma série que se dá ao luxo de usar artifícios de manipulação pra prender você na tela numa história desnecessariamente arrastada sobre um tema super delicado, tem o dever de, no mínimo, fazer a lição de casa. E ela não fez. O drama dos opressores foi bem explorado, mas o drama do oprimido não. Na minha opinião, o sofrimento e a depressão da Hannah foram pouco explorados e quase romantizados (“peraí que vou dar uma pausa na minha depressão pra criar um jogo, gravar 13 fitas k7 e pintar cada uma com esmalte azul”) , e a série não cobriu os riscos de abordar os oprimidos. Vale entender o que é o efeito Werther pra ter uma ideia do quanto 13 reasons why pode ser perigoda. A maki fala sobre isso nesse texto aqui.

Porque eu não te recomendo a série: porque eu não te conheço. Falo isso pra você, estranho leitor, e pra você, minha grande amiga. Eu não te conheço como você se conhece. Não sei quais são os seus gatilhos, não sei o que te assusta e o que te faz chorar quando ninguém está vendo. É uma série perigosa, toca em assuntos delicados e sai correndo, depois de um passo-a-passo de como cortar os pulsos se é que você tinha alguma dúvida.

Ei, 13 Reasons Why: volte duas casas e tente novamente.

 

Outros textos que eu recomendo sobre o assunto:

 

Black Mirror, a série que vai desgraçar sua cabeça

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Até o dia de hoje, 04 de outubro, são apenas 7 episódios. E quase todos eles tiraram um pouquinho da minha paz. Não consigo nem achar outra palavra, e é a mesma palavra que estou ouvindo de outras pessoas: é uma série que provoca um inevitável desgraçamento das ideias. E, ainda assim, é um desgraçamento necessário.

Sobre o que é: algo que desgraça tanto assim a cabeça não poderia ser fácil de explicar. Black Mirror é uma série com episodios independentes, cada uma tem sua história, mas tem algo em comum em todas elas, que é aquela sensação de que estamos perto demais daquela realidade – quase sempre relacionada às novas tecnologias, ou à mudança de comportamentos e da maneira com que consumimos coisas e informações, e como estamos nos relacionando com o mundo e com as pessoas a nosso redor.

Onde ver: é uma série do nosso amigo Netflix, então está tudo lá. São duas temporadas de 3 episódios cada uma, e já está disponível o primeiro episódio da terceira. No dia 21 de outubro sai o restante da 3 temporada.

FINAL DA PARTE LIBERADA DO TEXTO, SPOILERS A SEGUIR.

Episódios – o que eu achei de cada um:

S01E01 – The National Anthem

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Mistura de nojo com um sentimento familiar, que ao mesmo tempo que é absurdo eu não estranharia. Esse foi o episódio que me pareceu menos distante da nossa realidade. Poderia acontecer amanhã. Não achei o episódio mais poderoso, mas cumpre sua missão. E, caso não tenha ficado claro: nojo.

S01E02 – Fifteen Million Merits

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Olha. Esse episódio. Vou confessar que não foi amor à primeira vista. Eu não estava entendendo, achei tudo muito louco e abstrato – mas depois que terminou conversei com umas pessoas, li umas coisas e a ficha caiu. É um sentimento comum com os episódios de Black Mirror, quando você diz pra você mesmo: PUTA MERDA. Fala de tanta coisa atual e, apesar de ser o episódio mais futurista da série, é fácil terminar pensando que estamos indo nessa direção.  

S01E03 –The Entire History of You

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Um dos meus preferidos. Mostra algo que hoje não existe, mas que poderia existir e muita gente pagaria muito dinheiro pra ter. Até o ponto em que terminaria sendo acessível, e todo mundo tem um (história familiar): um grãozinho implantado que registra tudo o que acontece na sua vida. Como se sua vida fosse uma série, e você pudesse rever temporada e episódios quando quiser – e com quem quiser. Tudo NORMAL. Tão normal que os estranhos são quem não usam. Por um lado parece que eles têm total controle sobre suas vidas – mas na verdade é o contrário. Tudo o que tá registrado ali termina conduzindo os fatos e eles terminam sendo prisioneiros do que fizeram ou deixaram de fazer – seja nas relações com as pessoas ou numa entrevista de emprego. QUE PESADELO.

S02E01 – Be Right Back

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Esse foi o primeiro que vi. Já comecei assim, explodindo meu cérebro na TV. Adeus natureza, adeus ordem natural das coisas. Olá sentimento de “podia ser eu”. Sério, QUEM NUNCA? Imagina só o sentimento de desespero depois de uma tragédia salvo por uma alternativa assustadora mas tão real que termina sendo irresistível? De dar calafrios. E o morto falando no telefone VENDENDO O UPGRADE DA TECNOLOGIA, me matou.

S02E02 – White Bear

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APENAS O MELHOR EPISÓDIO. Nem com aviso de spoiler vou falar sobre o que acontece aqui, porque se você é louco e tá lendo sem ter visto porque “não liga pra spoilers”, não merece ter esse episódio estragado por mim. É um tapa na cara nos últimos minutos e pronto: desgraçamento de cabeça ativado. Antes mesmo do PLOT TWIST DUPLO CARPADO já é possível achar tudo muito insano, mas a mágica ainda vai chegar. E tem tantas relações ali com a realidad que a gente vive hoje que nem sei por onde começar. Se depois desse você insistiu na maratona e não precisou desligar a tv pra espairecer as ideias e curar a voadora recebida no cérebro, meus parabéns.

S02E03 – The Waldo Moment

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Não gostei. Simples assim. Dormi, insisti, não rolou. Eu até pularia. Beijos.

S03E01 – White Christmas

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JOHN HAMM, WELCOME BACK EM GRANDE ESTILO. Nesse também não dá pra dar nada de spoiler, mas está no meu top 3 junto com White Bear e The Entire History of You. Terminei pensando OK, AGORA TENHO SÉRIAS DÚVIDAS SE MINHA VIDA É REAL. Socorro.

 

Ou seja. Se não assistiu, assista. Agora. Sério, agora.

Se já assistiu, vem cá, me dá um abraço e afoga as mágoas pós-desgraçamento aqui nos comentários.

Mais fones de ouvido, menos babacas.

cc0410b6bd3536c733d2dbe891703c24Tenho um problema sério: fui criada pra me preocupar com os outros. Pra me perguntar sempre se não tô incomodando. Pra não ser folgada e não me servir toda a comida, porque tem mais gente pra comer. E pra entender que num ambiente com 50 pessoas, se uma se incomoda com algo que eu fiz, preciso repensar essa atitude.

É um problema quando eu passo a pensar primeiro nos outros e depois em mim. Mas é um problema ainda maior quando eu preciso conviver com babacas. Gente que não tá nem aí, que simplesmente não se importa com o espaço alheio e come a comida toda, e não liga se alguma das 50 pessoas a sua volta está incomodada.

Tive, durante os últimos tempos, o desprazer de conviver com babacas. Se você não tem certeza de quem são os babacas, preciso te dizer que eles não vem necessariamente com plaquinha de identificação. Babacas podem parecer legais pra caramba. Te recebem com um sorriso, são os legalzões da galera. E sabe onde tá cheio de babaca? Nos ambientes de trabalho. E um agravante: quando os babacas são os legalzões, muito pouca gente acaba percebendo a babaquice. E, se você percebe, provavelmente não terá muita sorte.

Vamos a um exemplo prático: primeiro dia de trabalho. Rola aquela tensão social (em partes normal, em outras uma tensão social extrema fruto da sua personalidade introspectiva), aquela expectativa pra agradar o pessoal e passar logo esse período de adaptação estranho. E aí, uma surpresa boa: a pessoa que senta do seu lado é legal pra caramba. Te ajuda, te diz onde fica a cozinha, o café, o chá. Te explica como funcionam algumas coisas na empresa. E ele tem bom gosto musical: coloca música ambiente e a música é ótima.

Como isso pode ser ruim? Eu explico: um dia você tá com dor de cabeça. Noutro dia você precisa MESMO se concentrar. E no outro, você quer um pouco de silêncio. Na maioria das vezes você tá com seu próprio fone de ouvido – mas rola de ter que subir o volume no máximo pra não misturar com a música ambiente. E se você achar que cansou de ouvir música… Não vai poder parar de ouvir. Porque a música ambiente está ali. E um dia você pede pra baixarem o volume (provavelmente nos dias de dor de cabeça). E vai ouvir um “ah, relaxa um pouco, vai”. E no outro, quando sua paciência já estiver se esgotando, você vai dizer “ai, sabe que não tô com vontade de ouvir música agora?”, e vai ouvir desse cara gente-boa-pra-caramba “pô, você tem que entender que não tá sozinha no escritório”. De repente, ele virou um cara nervoso-pra-caramba. Pronto. Nasceu um babaca.

E aí os babacas começam a brotar: um dia você tá num call super importante e os babacas começam a falar super alto, temas super aleatórios ou bizarros: de fofoca a “parabéns pra você” pra alguém, com palmas e tudo. E aí você pede silêncio. E aí você é um chato. Pronto. Nasceu a torta de climão que ninguém quer comer e dura pra sempre na geladeira da firma.

Seria super legal né? Se o ambiente de trabalho fosse assim relaxadão. Que todo mundo fosse brother. Que a gente ouvisse música o dia todo e parasse pra conversar por meia hora, e que cantasse mesmo parabéns pra aquele colega que entrou, bem alto e batendo palmas, porque ele merece. Mas sabe o que? Nem todo mundo pode estar relaxadão o tempo todo. Tem gente que tá cheio mesmo de coisas pra fazer, e tá super comprometido com algum projeto e precisa muito se concentrar porque quer ir embora às 18h, do mesmo jeito que você vai. Você talvez tenha sorte, tenha menos trabalho, ou seja menos ansioso, ou tenha uma relação diferente com seu próprio trabalho. Mas é você, né? Tem gente que tá numa ligação super importante, amigo. Em outro idioma, com um chefe e mais 10 pessoas, cada uma de um país diferentes e misturando trocentos sotaques em inglês. E aí a pessoa não sabe se tampa o ouvido pra poder ouvir o que estão dizendo, ou se tampa o microfone pro pessoal no telefone não ouvir a gargalhada dos que estão contando uma piada. Entendo sua filosofia de levar o trabalho numa boa, de ser relaxado e deixar o ambiente mais leve. Só que não pode ser só pra você, né? Se estiver atrapalhando alguém, já não é tão legal assim. Uma pessoa incomodada. É só isso o que precisa. E se você achar essa pessoa chata só por isso, tenho uma notícia: há grandes chances de você ser um babaca.

 

Sobre memórias e uma irmã improvável

bring backbring backbring back my bonnie to meto me (1)Um dos melhores momentos da última semana pra mim foi um áudio no whatsapp. Minha irmã cantando uma musiquinha infantil em inglês. E, bem, ela tem mais de 30 aninhos.

Sequência de fatos: ontem eu pensei na minha irmã no meio da rua – mas tava sem bateria pra escrever pra ela na hora. Aí chego em casa, boto o celular pra carregar e, puf: ela me escreve. Essas coisas de sintonia, que pra gente é diferente: somos irmãs por parte de pai e praticamente nunca moramos na mesma casa (apenas por alguns meses). As pessoas olham pra gente e o último que imaginam é que somos irmãs. Mas nós somos. E por causa da vida, e das circunstâncias, construímos essa sintonia – diferente, mas igualmente forte.

E nossas memórias de irmãs também existem. Como essa música infantil toda em inglês, que sabemos a letra inteira e nem sabemos como aprendemos tudo em inglês sendo tão pequenas. Pra gente, uma rodinha de violão é bem mais que um luau de adolescentes. Nela tem uma pasta preta de música cheia de Caetano, Milton Nascimento, Almir Sater e Roupa Nova. Pra gente, os nostálgicos biscoitinhos da piraquê não podem ser comido em outra situação a não ser em uma viagem de ônibus. E, aliás, canja é a comida mais adequada pra quando se chega ao destino final. Somos PHD na arte de limpar camarão. E, não sei se ela se lembra, mas a gente também tem a nossa música. E é essa aqui:

E esse é o nosso comercial de TV:

Esse, é o quintal onde a gente brincava nos finais de ano. E os nossos queridos avós de quem sentimos e sentiremos tanta falta. Cantamos o abecedário da xuxa inteiro correndo nesse quintal em círculos, e está tudo registrado num VHS.

 

E essas somos nós.

bateria

Esses dias ela fez aniversário, e esse é meu jeito de dizer que, mesmo longe, estarei sempre enviando pensamentos positivos através desse nosso elo de sintonia que, contrariando muitas expectativas, se formou. 🙂