Não tinha teto, não tinha nada

Outro dia uma amiga me levou a um curso de escrita. Há muito tempo não escrevia, e um dos textos que saíram dessa aula foi fruto de um exercício forte e intenso: narrar as lembranças da casa da nossa infância. Foi um texto despejado, quase uma narração crua, com pouca firula. Não acho que o texto que saiu foi lindo, mas tenho tanto carinhos por essas memórias que resolvi terminá-lo e deixar ele aqui. 

 

Era sempre dia. Sempre fazia sol. O céu azul, as nuvens que quase não se podia ver. Era sempre um verão fresco.

A rua, uma ladeira vazia. Quase não passavam carros, e o ônibus só aparecia se ele tivesse com vontade. Nas vezes que precisamos, acho que ele nunca quis vir. Havia uma senhora que subia a rua em zig-zag, e foi assim que eu aprendi que a subida fica mais fácil subindo assim.

Minha memória quer inventar outras casas, mas o que me sai dizer mesmo é que não há nenhuma.

A rua é nossa, dos nossos vizinhos, do bar, do mercado, dos bêbados e da polícia em um fusca. É onde jogam os cachorros mortos e onde se queimam os papéis guardados.

Não tínhamos medo de abrir a porta, não olhávamos em volta, só pensávamos que era preciso subir as escadas – mas isso não custava nada. Era agradável demais para ser sofrido.

Quem te recebia era a sala dos discos, do lustre hippie psicodélico, das lembranças e barulhos das festas felizes. Não batia sol, a luz era cinza e morna e limpa. Se comia onde se tinha que comer. Onde correspondia, sem distrações. Mas você dava uns poucos passos e a cozinha te fazia espreguiçar. Te invadia com uma bola de luz quente e amarela. Nostálgica e preocupada com a hora da comida – que não se esqueçam que a menina não aguenta esperar até as quatro. Limpo, ordenado, bem cuidado.

Você corre um pouco e afunda no corredor, o único lugar escuro da casa toda. Grande, como se tivesse um espelho infinito – e realmente tinha. Te levava a pequenos mundos, que te escondiam e te salvavam e se transformavam em refúgios onde o tempo não corria. Duas camas, ou tres, quatro com a cabana, ou com duas ao mesmo tempo. Você podia escolher onde dormir, e o espaço era tão amplo que dava pra criar várias situações simultâneas: a mesa do café, o acampamento, o escritório, a escola. Você tinha sua árvore, que te escondia e te inspirava a cruzar os limites de qualquer janela. Guarda-roupas misteriosos com  vestidos especiais, sapatos delicados e coisas que talvez você nunca tenha chegado a ver.

Um passo depois da porta porosa de madeira, e tudo era estável, e iluminado, e misteriosamente correto – até que deixou de ser. O banheiro, com a luz laranja, limpo (por quem?) e onde era possível passar horas. Não tinha ninguém.

Se esses dois mundos tinham as portas abertas e tudo em seu lugar – ainda que estivessem todas as coisas fora dele -, havia um terceiro que nunca terminava de se revelar. Uma porta ora aberta, ora fechada, ora trancada, ora convidando a espiar o que não se terminava de entender. Tinha gente, papeis, cheiros, sons, memórias, segredos. E não era seu.

De todos os mundos, o melhor era o limite. Não o limite metafórico, mas o limite real que rodeava aquela casa redonda cortada em duas. Uma varanda gigantesca, aos olhos de alguém de 4 anos. De um lado, a árvore. Do outro, um mirante para o quintal que era pra ser e não foi. Para ir de um lado ao outro, só havia um jeito: escorregando os dedos pela grade, suave o suficiente para não fazer barulho, mas forte o suficiente para que ficassem um pouco sujos e ásperos. De lá de cima, tudo. Tudo se imaginava e tudo se via, escondida nas árvores e nas alturas de um sobrado da rua dos bobos, número zero. 

Excesso de bagagem

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ilustração: KATIE RODGER’S

Estou chegando. Já colocamos a poltrona na vertical, já acomodei o cinto, vamos descer. Meu coração bate acelerado, de saudade e de pânico. Estou chegando. Dessa vez eu não tenho um motivo específico: não é natal, ninguém está casando, não é feriado. Hoje é terça-feira de uma semana qualquer e não, não tenho passagem de volta.

Oito anos se passaram desde que eu entrei num avião na direção contrária. Nove anos depois, dois idiomas a mais, alguns quilos também, uns 4 fios de cabelos brancos, uma carga de experiência que eu jamais imaginava que ia ter, e aqui estou eu. Eu só pensava em ir e deixar tudo pra trás: vou trabalhar de garçonete. Vou viajar. Que nada! A vida deu mais certo do que eu pensava. Mas chegou a hora. Estou voltando.

Quando saí do desembarque, uma parte de mim esperava uma festa: meus amigos todos me esperando com uma faixa enorme, com bexiga, aos gritos, chorando de felicidade. Mas em 8 anos a vida mudou pra todo mundo. Só veio meu irmão: que não é mais aquele que me abraçou quando eu embarquei praquele continente gelado. Ele tem mais bocas pra criar, umas olheiras profundas e tristes, e as costas pesadas que o fizeram diminuir 3 centímetros.

Eu estava olhando as luzes, sentindo o cheiro do mar, respirando aquela conhecida poluição, quando ele falou:

-Ele também voltou.

Três palavras. Precisou de três palavras pra eu me transportar pra minha vida de antes como se nunca tivesse vivido mais nada depois dela. A pessoa com quem eu passei anos da minha vida, que me fez feliz ao mesmo tempo em que me destruiu, estava a quilômetros de distância de mim. Mas eu sou outra, pensei. E afastei a bad com outras três palavras.

-É? Olha só.

Estava tudo igual, mas parece que tudo tinha se esquecido de mim. Eu mudei tanto, evoluí tanto, me transformei tanto, que parece que essa vida não me reconhece mais. Foi inevitável pensar “ele não vai acreditar”. Apesar de ainda me sentir com 15, 16 anos, às vezes, eu sabia: era uma mulher. Uma puta de uma mulher. Independente. Sou sensacional, superei todas as expectativas.

Não demorou nada: 2 dias depois, nos cruzamos pela rua. 3 dias depois, recebi uma mensagem. 4 dias depois, tínhamos um café marcado. Minha melhor amiga não entendia o que eu estava fazendo: “Helena, ele te destruiu”. Sim. Mas eu estou inteira. Ele me destruiu, e eu me reconstruí. Não apenas isso: eu me reconstruí em forma de obra de arte.

Fui andando. Escutava o barulho do meu pequeno salto na rua e pensava: um pedaço de mim estava esperando por esse momento. Já posso ver ele sem graça, se arrependendo, pensando em como gostaria de voltar atrás. Ele não vai nem me reconhecer. Vai suar frio vendo o que ele perdeu.
Cheguei no café e vi ele numa mesa, sentado, distraído. Como sempre. Me viu e abriu um grande sorriso. Eu pude ver, ele estava admirado. Estava envergonhado. Ficamos ali por quase 3 horas, conversando e rindo e falando da vida. Eu relaxada, ele sorridente. Eu contando sobre minhas aventuras, ele tentando encontrar algo de interessante sobre sua vida para compartilhar. Às 20h eu ja estava em casa. Nos despedimos com um abraço inofensivo, eu sabia que estava intimidando aquele menino que ainda parecia ter 20 anos. Eu sabia.

Escrevi pra minha amiga: “sobrevivi”. Ela me respondeu “veremos”. Outra mensagem: era ele. Quatro palavras. Mais palavras que, em menos de uma semana, me despedaçaram. Ele só podia estar de sacanagem comigo. Passei anos viajando e vivendo uma vida sem ele, conhecendo pessoas, ficando mais interessante. E ele me vem com essas quatro decadentes palavras.

-Você não mudou nada.

 

 

 


há muito tempo não escrevo esses pequenos contos, despretensiosos, que aparecem na minha cabeça do nada e que escrevo em poucos minutos. esse, escrevi há mais de um ano, e ficou perdido em algum lugar do meu drive, sem título. a coceirinha de escrever mais bateu, e resolvi publicar 🙂

Dos pequenos mundos que a gente cria

Liniers – Una tristeza perfecta, de esas que te hacen crear algo para no olvidarte cómo se siente… una tristeza perfecta.

Dos 10 aos 15, aproximadamente, eu morava em um mundinho isolado. Tinha umas 5 amigas da escola, mas passava muito, MUITO tempo sozinha. Morei em dois condomínios, cheios de gente da minha idade, fazendo tudo o que pessoas dessa idade fazem. Na maior parte do tempo, eu os observava da janela, ou de longe enquanto brincava com uma das minhas amigas que também era minha vizinha. Agora, enquanto escrevo isso (com quase 32 anos), começo a pensar que na verdade era tudo bem legal. Mas preciso fazer uma forcinha pra me colocar no meu próprio lugar e entender quem eu era naquele momento.

Aparência: estranha. Magra, magra demais, extremamente magra, esquisitamente magra. Cabelo sem controle, sem aceitação, eu sonhava com o dia em que ia molhar o cabelo e ele secaria liso, magicamente.
Habilidades sociais: inexistentes. Eu não sabia conversar, interagir, me manifestar, nada.
Contexto familiar: TURBULENTO.

Pois bem, outro dia na terapia, falando sobre a parte turbulenta, eu escutei a frase “você até que se saiu muito bem”. E acho que concordo. E começo a pensar que esse mundinho isolado que criei, me ajudou a amadurecer e a me formar. E hoje, quando me lembro dele, não posso evitar sentir um pouco de saudades – e eu podia jurar que não sentiria saudades dele nunca.

As atividades frequentes do meu mundinho se resumiam em: escutar música, gravar músicas nas rádios, ligar nas rádios pra pedir músicas, e escrever. Escrever muito. Escrever qualquer coisa. Eu e mais duas amigas escrevíamos “a história”. Era uma história sem propósito e sem fim. Cada uma tinha uma personagem: eu era a Maria, e elas eram Verônica e Julieta. A gente ia passando o caderno uma pra outra e cada uma continuava a história da sua personagem, talvez projetando a vida que queria ter, talvez apenas imaginando sem nenhuma pretensão. Além disso, eu tinha minhas próprias histórias. Grupos de amigos, casais, meninas… não importava. Enquanto eu escrevesse, minha cabeça se mantinha ocupada. 

Pela minha memória, foram só 5 anos de mundinho. Mas parece que foi uma eternidade, e que depois dele, tudo passou voando. A minha percepção de quem eu sou está tão presa àqueles 5 anos, que de vez em quando tenho que chamar minha própria atenção pra me lembrar que depois daquilo teve muito mais. Do mesmo jeito que, de vez em quando, também preciso me lembrar do que me inspirava tanto – principalmente a escrever. No fundo, esse mundinho continua comigo sempre – toda vez que preciso me isolar de tudo e de todos, ou que preciso encostar numa caneta e rabiscar alguma coisa, ou quando observo o mundo bem de longe.

Das coisas que eu mais queria naquela época, consegui quase todas.
Eu queria ser bonita, queria ser independente, queria ter um grupo de mil amigos (“misto, de meninos e meninas”, eu pensava) e queria ter um relacionamento feliz e saudável.
De tudo isso, só não consegui o grupo de mil amigos. Consegui vários amigos, mas a vida quis que não fossem um grande grupo, e ainda por cima colocou cada um deles num canto do mundo.

E você, como era o seu mundinho?

Meu dia 8 de março de 2018

Hoje é dia 8 de março e, pra mim, foi um dia internacional da mulher um pouco diferente dos outros. Diferenças sutis, não aconteceu nada de extraordinário, mas eu senti que aqui no meu mundinho ele bateu diferente.

Não vi televisão, não vi publicidades, foi um dia corrido e tudo o que eu fiz foi ir vivendo as coisas que foram aparecendo.

Soube de uma reunião de mulheres na empresa pra falar sobre o assunto e discutir coisas relacionadas ao espaço da mulher e às pequenas e grandes conquistas de todos os dias.

Fui almoçar com duas amigas, e naturalmente nós também falamos sobre nossa percepção do que vivemos. Falamos da complexidade que existe ao interpretar o que está acontecendo, como nós mesmas nos metemos em uma estrutura machista e como essa cultura está em tudo e em todos. 

Vi uma auto-homenagem, e me inspirei. Fiz-me uma. 

Escutei elogios dessas mesmas amigas, e as forcei a aceitar os meus elogios. Porque é tão difícil aceitar os elogios? Volta e meia penso em como uma das críticas mais frequentes no colégio às meninas era “essa menina se acha”. Já usei muitas vezes – nunca ouvi porque nunca me achei, seria um absurdo. Hoje penso – que maravilha é se achar. Se achar bonita, se achar competente, se achar capaz.

A impressão que levo desse dia é que: estamos de olho. Estamos prestando atenção. Muita. Estamos apontando o dedo e levantando a voz pra dizer “você me interrompeu, eu estou falando”. Estamos juntas, nos estamos reconhecendo, estamos juntando forças pra entender, nos livrar e enfrentar uma teia de aranha empoeirada. Estamos avançando.

Gif: da minha talentosa e inspiradora amiga Juliana (@jubscript)

Bullet Journal: primeiros passos pra entender esse método apaixonante

Bullet Journal. Se você ainda não sabe o que é isso, se prepara: há grandes chances de você entrar nesse universo e não conseguir mais sair. Foi o que aconteceu comigo: de um dia pro outro fui apresentada a esse método, e fiquei obcecada por todo conteúdo relacionado. Antes de qualquer coisa, não posso deixar de mencionar a rainha do bullet journal no Brasil: a Maki do Desancorando.

Na teoria, se trata de um organizador manual, uma maneira de organizar prioridades e afazeres através de um caderninho prático, feito a mão e com uma essência minimalista. Existe uma base pra esse método, e a partir daí cada um vai adaptando o seu próprio “bujo”.

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Mas na prática, na minha prática, o bullet journal significa um respiro. Eu poderia ter simplesmente uma agenda. Mas preferi me dedicar a esse pequeno projeto, que exige dedicação, cuidado, inspiração e empenho. Não deu certo de primeira, nem todo dia dá certo, mas não é assim que costuma ser tudo nessa vida?

Pois vamos lá. O que é o bullet journal e como funciona?

O BuJo é um método criado por um cara chamado Ryder Caroll e, segundo ele, é “um sistema analógico da era digital”. Ele fez um vídeo explicando o básico do método, está em inglês mas já dá pra ter uma ideia de como funciona. Aliás, a maioria do conteúdo sobre o bullet journal está em inglês, então vamos reforçar a biblioteca brasileira né? Estou juntando coragem pra fazer um em português mostrando como eu uso o método – será que rola?

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Explicando em poucas palavras: o bullet journal te ajudar a fazer um PLANEJAMENTO DO FUTURO (que pode ser trimestral, semestral ou até anual), que deriva num PLANEJAMENTO MENSAL, que deriva num PLANEJAMENTO DIÁRIO E/OU SEMANAL. A mágica do bullet journal acontece no método como todos esses planejamentos conversam entre si, e também em como eles dão origem a outras categorias, como as COLEÇÕES. Isso acontece, por exemplo, com a migração. Exemplo: se tenho muitas notas sobre restaurantes nos meus “logs diários”, eu posso migrá-las para uma coleção chamada RESTAURANTES, e catalogá-la no ÍNDICE, que é o pai e a mãe de todo bullet journal.

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Dá uma olhadinha no vídeo da maki:

 

Um lugar pra planejar, registrar e seguir todos os seus planos e tarefas.

E, acima de tudo, um lugarzinho pra dar uma parada e organizar num papel todos os planos, ideias, inspirações e informações que ficam rodando a nossa cabeça diariamente.

Gostou da ideia? Vem comigo e morra de amores por todas as referências que tenho guardadas no pinterest. E se quiser saber mais sobre o meu, deixa eu comentário e me conta 🙂